sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Correios lança selo institucional Pena Justa, em cerimônia no STF

  

Plano elaborado pelo MJSP e pelo CNJ reúne uma série de medidas para combater violações de direitos humanos nos presídios brasileiros
 
Brasília, 17/1/2025 - Brasília – Os Correios lançaram, na noite dessa quarta-feira (12), selo postal institucional em celebração ao Plano Pena Justa. A solenidade ocorreu durante o evento de lançamento do projeto, realizado na sede do Supremo Tribunal Federal (STF), e foi conduzida pelo diretor de Gestão de Pessoas da empresa, Getúlio Marques Ferreira.

A emissão foi obliterada pelo presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Luís Roberto Barroso; pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski; e pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco.

Em sua fala, o diretor dos Correios destacou que os selos postais mantêm sua relevância ao indicar o que cada nação escolhe como símbolo de um tempo. “O selo que lançamos hoje representa um marco histórico para o nosso país. Simboliza a evolução da nossa visão de sociedade e da percepção de que a violação dos direitos humanos traz efeitos nefastos para todos. O Plano Pena Justa é resultado de um debate amadurecido ao longo de décadas pelos três poderes brasileiros”, afirmou.

“Estar aqui é motivo de muito orgulho para os Correios. Agradeço ao CNJ e à Segurança Pública pela oportunidade de fazermos parte deste momento importante para a história do Brasil”, ressaltou Getúlio, ressaltando que o papel dos Correios, orientado pelo Presidente da República, é servir à população brasileira, não apenas pela entrega de cartas e encomendas, mas como agente de políticas públicas.

O dirigente lembrou ainda da parceria firmada entre os Correios e o CNJ para integrar e expandir a abrangência da campanha Papai Noel dos Correios e do programa Jovem Aprendiz. Um dos acordos formaliza o apoio da estatal ao programa Novos Caminhos/CNJ, que busca desenvolver as potencialidades e contribuir para a autonomia dos jovens em acolhimento institucional. Por meio do programa Jovem Aprendiz dos Correios, esses jovens terão acesso à capacitação e oportunidades de emprego, promovendo sua autossuficiência financeira. Outra parceria firmada entre as instituições prevê a participação das Unidades de Acolhimento selecionadas pelas Coordenadorias da Infância e da Juventude dos Tribunais de Justiça para participarem de uma das maiores campanhas natalinas do país, o Papai Noel dos Correios, que em 2024 completou 35 anos de atuação. A ideia é promover um Natal mais alegre às crianças e adolescentes assistidos por essas unidades jurisdicionais.

Pena Justa – O Plano Nacional para Enfrentamento do Estado de Coisas Institucional nas Prisões Brasileiras foi elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e reúne uma série de medidas para combater e dirimir violações de direitos humanos nos presídios brasileiros.

Homologado em dezembro de 2024 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o Plano deve guiar a atuação de todos os estados e o Distrito Federal nos próximos anos. Tem como objetivo assegurar que as mudanças implementadas sejam duradouras, sem retrocessos. O documento, aprovado pela Casa Civil, contém 51 ações com 306 metas a serem alcançadas até 2027, além de mais de 140 medidas desenvolvidas em colaboração entre os Poderes Executivo e Judiciário.

Essas medidas estão organizadas em quatro áreas principais: controle da entrada e das vagas prisionais para combater a superlotação; melhoria da infraestrutura e dos serviços; processos de saída e reintegração social; e garantia da continuidade das transformações.

Acordos de Cooperação – Durante o evento, o CNJ e o MJSP assinaram um protocolo de intenções, e celebraram parcerias com diferentes instituições para enfrentar os desafios do sistema prisional brasileiro, com foco em financiamentos, inserção profissional, empreendedorismo, e qualificação para egressos e pessoas privadas de liberdade:
  • CGU, visando fortalecer a execução do Plano Pena Justa, com maior eficiência operacional e otimização de recursos. A parceria propõe o intercâmbio estratégico de conhecimentos e melhores práticas, criando oportunidades de apoio mútuo, maior transparência e efetividade nas ações. A CGU será responsável por avaliar a execução das iniciativas do Pena Justa, monitorar a implementação do acordo e fornecer orientações aos gestores, para garantir a eficácia no cumprimento dos objetivos estabelecidos.
  • BNDES, tem como foco o financiamento de projetos estaduais, apoio a iniciativas socioculturais e o fomento ao acesso a microcrédito para egressos do sistema prisional e seus familiares. Além disso, busca melhorar o uso dos recursos públicos e privados, e promover eventos que discutam melhorias nas políticas penais. O objetivo é fortalecer a reintegração social dos egressos e melhorar a gestão do sistema prisional brasileiro.
  • Ministério dos Transportes, DNIT, ANTT e INFRA S.A.(Emprega 347), com o objetivo de ampliar e qualificar as iniciativas de inserção profissional para pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, com foco no setor de infraestrutura de transportes rodoviário e ferroviário. O acordo também prevê a promoção de capacitações conjuntas, a elaboração de diagnósticos e relatórios sobre o sistema prisional, e o incentivo a programas que favoreçam a reinserção socioprofissional dos beneficiários.
  • TST, visa promover a oferta de vagas de trabalho decente e de formação profissional e incentivar o empreendedorismo, para garantir maior segurança e sustentabilidade na reintegração social de pessoas egressas do sistema prisional. A parceria terá duração inicial de 36 meses e pode ser prorrogada por até cinco anos. Entre as ações previstas estão o incentivo à contratação de egressos por entes públicos e privados, o estímulo à qualificação técnica em parceria com instituições como o Sistema S e a realização de eventos institucionais para ampliar o diálogo sobre o tema.
Os estudos para a construção do Plano Pena Justa revelaram que o sistema penitenciário brasileiro, que opera à margem da Constituição, não apenas compromete a dignidade das mais de 1,5 milhão de pessoas que cumprem pena dentro e fora dos presídios, como também impacta negativamente familiares, agentes penais, seguranças, prestadores de serviço e gestores penitenciários.

O plano foi elaborado em colaboração entre os Poderes Executivo e Judiciário, com o apoio de 59 instituições. Ao longo do processo, houve contribuição significativa da sociedade civil, com a participação de 6 mil pessoas por meio de consultas e audiências públicas.

Com informações do Ministério da Justiça e do TST.

Opera Mundi: Lesoto e a perpétuo exílio


A beira-mar, se localizava a aldeia de Lesoto Maombe, que em tempos imemoriais passava por provações, os peixes outrora abundantes nos rios e no mar rareavam, crianças não nasciam ou nasciam mortas, as cabras não davam leite, a caça era escassa e as plantações secavam. Parecia que Xangô, o deus do trovão, do fogo e da justiça, Iansã divindade dos ventos, tempestades e raios, Oxum a divindade das águas dos rios e das cachoeiras, Ogum o deus da guerra, do ferro e do trabalho, Esú o controverso deus da fanfarronice e Oxóssi: o deus guerreiro, eles todos e todas simplesmente tinham desaparecidos para todo o sempre. Não ouviam os clamores dos seus súditos, por mais que as oferendas fossem feitas e os ritos praticados. Em desespero, o conselho tribal se reuniu em um conclave e decidiu voltar às antigas práticas, há muito esquecidas, iniciadas quando um grupo desconhecido de muzungos, desembarcaram na orla da praia. E em meio de fortes apelos, murmúrios e gritos desesperados, acusando o conselho supremo de blasfemos.

Para Lesoto Maombe, lembranças vagas chegavam para dele, quando era uma criança bem pequena, ele nos braços de um Açogbá, eles subindo o Quidebanjaro, eles languidos subiam ao monte do pico nevado, a caminho do templo de Dagantakala, mais conhecido como Dagon. Os dois vestidos com trajes cerimoniais alabastrinos, pois Dagon, o deus da fertilidade, exigia o seu tributo, para conceder as suas graças. Ao chegarem no alto do cume nevado, encontraram o templo decadente, as colunas colossais caídas, passaram pelo portal depauperado. Passaram pelo átrio do templo, o Açogbá que carregava o pequeno Lesoto Maombe, colocou a pequena criança, de sangue nobre, no chão de mármore negra. Diante deles, um grandioso monólito de Dagon, imponente no altar, Dagantakala sedento parecia cobrar o seu tributo. O Açogbá apontou para o ídolo, sem dizer uma palavra sequer, ordenou que o pequeno Lesoto Maombe, deveria ir sozinho até o monólito de pedra. O sumo sacerdote, deu as costas, enquanto o menino, de sangue nobre subiu as escadarias do altar, caminhou até o monumento. Um forte cheiro putrefato, de animais marinhos mortos e água oceânica, empesteou o lugar e um estrondo tomou conta do ambiente, um urro primal, vindo do cosmo, inundou o templo. Uma revoada de agourentas aves Moris, enegreceu o céu e os gorjeares das negras aves, prenunciaram o início de uma grandiosa tragédia. 

***

O comandante de campo Lesoto Maombe, com dificuldade, caminhava pelas areias alabastrinas do deserto desolado, da afra rainha Luna Dark. O comandante de campo, se lembrou da ida até a Turris Ebrurnea, a morada do cyborgue vate Yendel, o súdito do deus cibernético Calibor. O vate ladeado da semideusa, a afra rainha Luna Dark, a protegida de Hastur, o rei de amarelo. E dos muitos níveis, daquela união absurda, estava mais que errada e até quando a tragédia preanunciada se daria cabo. Mas por hora, o comandante de campo, tinha uma missão, encontrar o general Botswana, para ambos irem até a cidade das nuvens, a cidade santuário de Calibor. A afra rainha Luna Dark, se encontrava no autoexílio perpétuo, no mundo em vigília e aquele momento era o ideal para resgatar o honroso militar do exílio, por desonrar a patente e desafiar o deus cibernético Calibor.

O calor celestial, que emanava dos sóis gêmeos, castigavam Lesoto Maombe, e o exoesqueleto estava no seu limite, o comandante de campo, levou a mão até o antebraço direito e ajustou o traje. Também ajustou a localizador e notou que o general Botswana não estava muito longe. Lesoto Maombe, fechou os olhos e evocou todos os Orixás, naquela hora extrema.               

 

Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.

Argumento de Samuel da Costa, poetisa, contista, cronista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

Livro sobre transição agroecológica mostra a relevância das redes sociotécnicas e da governança participativa para o desenvolvimento territorial sustentável

 




A Embrapa Meio Ambiente acaba de lançar a obra "Caminhos da Transição Agroecológica no Leste Paulista", um livro que busca subsidiar a identificação de demandas prioritárias e a definição de estratégias coletivas para impulsionar a transição agroecológica na região. A publicação também visa fortalecer a integração entre comunidades rurais e seus parceiros nas áreas de extensão rural, ensino e pesquisa agropecuária, promovendo iniciativas que estimulem o desenvolvimento territorial com enfoque agroecológico.

Francisco Corrales, analista da Embrapa Meio Ambiente e um dos editores do livro, destaca que a publicação foi elaborada com o propósito de orientar o planejamento de ações em ciência e tecnologia, com uma visão estratégica para a agricultura brasileira. “Nosso foco inclui processos de gestão territorial, que contemplem a sustentabilidade dos sistemas de produção, considerando a conservação da água, do solo e da biodiversidade, além da mitigação dos impactos das mudanças climáticas”, explica Corrales. Ressalta ainda as contribuições em referenciais para iniciativas promotoras do desenvolvimento territorial rural em suas múltiplas dimensões: social, econômica, ambiental, política e ética.

A obra enfatiza a relevância das redes sociotécnicas e da governança participativa na transição para modelos sustentáveis de produção agropecuária. Para isso, propõe abordagens que favorecem a geração e o intercâmbio de conhecimentos, especialmente para a agricultura familiar, segmento que mais necessita de suporte público em ciência e tecnologia. A identificação de demandas locais, por meio de métodos participativos, é essencial para garantir tomadas de decisão coerentes com o contexto territorial.

Para Joel Queiroga, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e editor do livro, a publicação não apenas apresenta estratégias para a produção sustentável de alimentos, mas também oferece diretrizes metodológicas na realização de diagnósticos socioambientais voltados ao conhecimento da realidade do território e processos participativos em prospecção de demandas. “Nosso objetivo é fortalecer a agroecologia e apoiar as iniciativas das populações mais vulneráveis, tanto no campo quanto nas cidades”, afirma Queiroga.

Pretende-se que a iniciativa contribua para o fortalecimento de práticas agroecológicas no Leste Paulista e em outras regiões do país. De acordo com a pesquisadora Cristina Criscuolo, da Embrapa Territorial e também editora do livro “Gostaríamos de inspirar pessoas e coletivos envolvidos em processos que contribuam para animação de processos e tomadas de decisão promotoras do desenvolvimento territorial sustentável, a partir dos princípios da agroecologia”. 

O livro parte do resgate histórico da Rede de Agroecologia do Leste Paulista e do aprendizado adquirido com o projeto “Prospecção de demandas e intercâmbio de conhecimentos para a transição agroecológica da agricultura familiar no território Leste Paulista”, realizado entre 2018 e 2022. A publicação tem 159 páginas e está estruturada em cinco capítulos. O primeiro apresenta o contexto histórico e as políticas públicas ligadas à agricultura familiar agroecológica, detalhando a evolução da Rede de Agroecologia do Leste Paulista e seu modelo de gestão.

O segundo aborda os referenciais teórico-metodológicos, destacando a prospecção de demandas, o intercâmbio de conhecimentos e as metodologias participativas. O terceiro trata da aplicação dessas metodologias na região, fornecendo um diagnóstico socioeconômico e ambiental do Leste Paulista. No quarto capítulo, os resultados obtidos são analisados e organizados em sete eixos programáticos que orientam os grupos de trabalho da rede. Por fim, o quinto capítulo aponta perspectivas para o futuro da Rede de Agroecologia do Leste Paulista e apresenta diretrizes para fortalecer a transição agroecológica e o desenvolvimento rural sustentável nesse território.

A publicação está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), em especial ao ODS 2 - Fome Zero e Agricultura Sustentável e ao ODS 17 - Parcerias e Meios de Implementação. Contou com a participação de doze autores, vinculados a Unidades Descentralizadas da Embrapa (Meio Ambiente, Territorial, Agrobiologia e Meio-Norte), além de instituições de extensão rural e ensino superior, como a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral - Cati, a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo - Itesp e a Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. 

Conab promove palestra sobre acesso de comunidades tradicionais a políticas públicas de incentivo à agricultura familiar

 A qualificação de comunidades tradicionais para o acesso a políticas públicas de incentivo à agricultura familiar será o foco da palestra que acontece nesta quinta-feira (13), das 14h às 18h, no auditório da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em Brasília. O evento, de caráter formativo, é direcionado aos cursistas do Programa de Formação em Cadeias de Valor Sustentáveis e Inclusivas do Cerrado: Formar Baru, uma iniciativa do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), em parceria com a Associação Quilombo Kalunga (AQK) e a CooperFrutos do Paraíso, ambas situadas na região da Chapada dos Veadeiros.

A abertura contará com a participação do presidente da Conab, Edegar Pretto, que reforçará a importância das políticas públicas voltadas à segurança alimentar e ao desenvolvimento sustentável. A cerimônia terá ainda a presença do coordenador de Apoio a Parcerias na Secretaria de Abastecimento, Cooperativismo e Soberania Alimentar (SEAB/MDA), João da Mata Nunes Rocha, da superintendente de Gestão da Oferta da Companhia, Candice Mello Romero Santos, da assessora da Diretoria de Política Agrícola e Informações da estatal, Naiara Bittencourt, e de um representante do IEB.

Após a abertura, será feita uma explanação sobre o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com destaque para suas modalidades de participação, incluindo a Compra com Doação Simultânea (CDS), amplamente utilizada por organizações como a CooperFrutos do Paraíso. Na sequência, será apresentada a Política de Garantia de Preços Mínimos para Produtos da Sociobiodiversidade (PGPMBio), detalhando como o cálculo dos custos de produção impacta a valorização dos produtos agroextrativistas. O evento será finalizado com a exposição do Programa Arroz da Gente, uma iniciativa do Governo Federal para incentivar a produção do grão em áreas que historicamente já o cultivaram.

O encontro tem como objetivo não apenas apresentar as políticas públicas disponíveis, mas também orientar os participantes sobre como acessá-las, com o intuito de fortalecer suas atividades produtivas e ampliar a comercialização de produtos agroextrativistas. Com um público formado por quilombolas, agricultores familiares e representantes de comunidades tradicionais do Cerrado Brasileiro, o Formar Baru busca qualificar essas populações para aprimorar suas cadeias produtivas, promovendo autonomia e protagonismo local. A iniciativa faz parte do projeto “Cerrado em pé com geração de renda: a cadeia produtiva do baru como aliada da biodiversidade e dos povos tra

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Brasil tem grande potencial para produção de peixes nativos

 



O tambaqui é o peixe nativo mais produzido no Brasil. De acordo com a última Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023 o País produziu 113,6 mil toneladas da espécie, movimentando mais de 1,2 bilhão de reais no período.

Em termos de estados, Rondônia liderou a produção naquele ano, com quase 47,2 mil toneladas. Na sequência, vieram Roraima (com mais de 16,3 mil toneladas) e Maranhão (que produziu mais de 10,6 mil toneladas de tambaqui em 2023). Os três principais estados, portanto, responderam por cerca de 65% da produção nacional da espécie em 2023.

Considerando o potencial do Brasil, que possui regiões muito propícias à produção de peixes nativos, os números ainda são modestos. A Embrapa e outras instituições conjugam esforços para mudar esse cenário.

Ciência e setor produtivo se unem para construir pacotes tecnológicos em prol do tambaqui

 



Essa evolução no ganho de peso é mais um avanço que faz parte de um processo maior, construído em parceria entre a pesquisa e o setor produtivo, para melhorar a produtividade do tambaqui em tanque-rede, conforme a pesquisadora. Ainda não existe um protocolo completo de produção ou um pacote tecnológico para a espécie, diferentemente da tilápia, que já possui essas orientações e, muito em função disso, é o peixe mais produzido e exportado pelo Brasil.

Os resultados do Monotamba são zootécnicos, ou seja, referem-se à criação e à produção, mas ainda faltam resultados econômicos, tão importantes quanto os já obtidos. Segundo a pesquisadora, “é preciso calcular os indicadores econômicos para ver se esse tempo que o peixe tem que permanecer indoor vai representar um alto custo para o produtor”.

Um ponto fundamental é que, como os animais já são condicionados desde o início a se alimentarem apenas de ração e esse insumo pode representar até 80% dos custos de produção, saber a quantidade e o momento da alimentação passam a ser pontos de atenção ainda mais necessários para o produtor.

Além do ganho de peso já possível, o aumento da densidade de população nos tanques-rede é outra evolução próxima. Tavares acredita que uma densidade de 50 kg/m³ é viável. Dessa maneira, ocorreria outra diminuição de diferença entre a produção de tambaqui e a de tilápia, que é feita em densidades normalmente maiores.

A pesquisadora contextualiza o atual estágio dos trabalhos: “Estamos avançando, faz parte de um processo. Teremos espécies melhoradas para tanque-rede, teremos edição genômica que vai auxiliar também no ganho de peso nesse sistema de produção. Tem tudo para dar certo, é um baita potencial que o tambaqui tem, principalmente, para a Região Norte do Brasil”.

 

Foto: Aliny Melo

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Solo mais ácido diminui capim invasor e ajuda a restaurar vegetação nativa do Cerrado, aponta estudo


05 de fevereiro de 2025

Aplicação de sulfato ferroso em área degradada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, reduziu disponibilidade de nutrientes e conteve espécies exóticas, permitindo que gramíneas próprias do bioma, adaptadas a solos pobres, crescessem novamente

André Julião | Agência FAPESP – Em estudo publicado na revista Restoration Ecology, um grupo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aponta um caminho promissor para a restauração do Cerrado.

Por meio de um experimento realizado no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, os autores demonstraram como, diferentemente do que fazem algumas iniciativas de restauração convencionais, não se deve adicionar nutrientes ao solo quando se trata do Cerrado, pelo contrário.

Em uma área em restauração dentro do parque, os pesquisadores analisaram o crescimento de gramíneas invasoras e de espécies nativas depois da aplicação de sulfato ferroso, que torna o solo mais ácido e diminui a disponibilidade de nutrientes. Nos locais em que o mineral foi aplicado, reduziu-se em quase 71% a ocorrência de invasoras, sem que houvesse prejuízo para as nativas.

“As plantas do Cerrado têm uma baixa demanda nutricional, são de crescimento lento. Enquanto as gramíneas invasoras crescem rápido e demandam muitos nutrientes. O sulfato ferroso devolve ao solo a condição mais próxima da original, favorecendo as nativas e dificultando o crescimento das invasoras”, explica Demétrius Lira Martins, que conduziu o trabalho durante seu pós-doutorado no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, com apoio da FAPESP.

A área de 50 hectares passou a ser restaurada em 2016, após cerca de 30 anos como pastagem. Quatro anos depois de retirado o capim exótico, feita a preparação do solo e a semeadura de espécies nativas, o local foi novamente tomado pelas gramíneas africanas.

Em 2021, a restauração foi retomada. Desta vez, foi estabelecido o experimento para verificar o efeito da acidificação do solo na contenção do capim exótico. Os pesquisadores demarcaram 14 blocos de 100 metros quadrados (m2). Em cada um deles, separaram quatro blocos menores, de 1 m2 cada, separados em 10 metros de distância entre si.

Em metade desses blocos, foi aplicado sulfato ferroso no solo antes da semeadura de gramíneas e arbustos nativos. Após quatro meses da última aplicação, foram coletadas e pesadas amostras das plantas que cresceram em cada quadrado, tanto nativas quanto exóticas.

Ao comparar os blocos, observou-se uma redução de 70,7% na biomassa das espécies invasoras onde foi realizada a acidificação, sem que houvesse prejuízo às espécies nativas. 

“A acidificação aumentou os níveis de alumínio no solo, que é tóxico para plantas convencionais. Mas as espécies nativas lidam muito bem com isso. Não é à toa que a primeira coisa que se faz após desmatar uma área de Cerrado para lavoura ou pastagem é fazer a calagem [aplicação de calcário], que diminui a disponibilidade de alumínio e aumenta de outros nutrientes”, conta Martins.


No alto, bloco experimental em início de implementação e que teve o solo acidificado ficou livre de capim invasor, com nativas retornando lentamente.
Na outra foto, local que não recebeu o sulfato ferroso tomado pelas espécies africanas (fotos: Demétrius Lira Martins)

Estratégias

O estudo integra o projeto “Restaurando ecossistemas neotropicais secos: seria a composição funcional das plantas a chave para o sucesso?”, apoiado pela FAPESP e coordenado por Rafael Silva Oliveira, professor do IB-Unicamp.

A estratégia apresentada agora se soma a outras desenvolvidas pelo grupo. Em trabalho anterior, também apoiado pela FAPESP, os pesquisadores mostraram como uma maior diversidade de espécies nativas funciona como forma de conter gramíneas invasoras (leia mais em: agencia.fapesp.br/50773).

No caso da acidificação, os pesquisadores ressalvam que o sulfato ferroso é apenas um dos compostos que podem realizar essa função. Experimentos no hemisfério Norte, por exemplo, usaram enxofre para o mesmo fim. Mas para realizar algo em grande escala no futuro é preciso antes avaliar o melhor custo-benefício.

“Em tese, qualquer substrato ácido pode servir. Uma das opções poderia ser o resíduo do processamento da cana-de-açúcar, que é abundante e barato. Por sua vez, a cama de frango descartada [serragem ou outro material usado no chão de granjas] é bastante ácida, mas contém muito nitrogênio, que favorece as invasoras. É preciso avaliar os possíveis impactos de cada opção e a viabilidade financeira”, pontua o pesquisador.

Ainda segundo Martins, outro fator a ser levado em conta em futuros trabalhos de restauração é a comunidade microbiana do solo, algo ainda pouco conhecido quando se trata do Cerrado.

“Os microrganismos do solo são a base da ciclagem de nutrientes. Por isso, formas de trazer de volta os originais do Cerrado são fundamentais para restaurar esse bioma tão ameaçado”, encerra.

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