segunda-feira, 13 de julho de 2026

Exposição de Maria Auxiliadora Silva encerra temporada em Nova York ampliando debate sobre arte brasileira

 


Com curadoria de Bruna Grinsztejn, a mostra reuniu pinturas que despertaram discussões sobre memória, identidade, relações sociais, trabalho, e os processos de transformação vividos pelo Brasil ao longo do século XX

Após quase dois meses em cartaz no Hessel Museum of Art, no campus do Bard College, em Annandale-On-Hudson, Nova York, a exposição “Imprinted in My Mind”, dedicada à artista brasileira Maria Auxiliadora Silva (1935–1974), encerrou sua temporada, consolidando o interesse do público norte-americano por uma das mais singulares artistas brasileiras do século XX.

Com curadoria de Bruna Grinsztejn, a mostra reuniu pinturas que exploram as relações entre memória, imaginação e as experiências rural e urbana no Brasil das décadas de 1960 e 1970, articulando as paisagens construídas no limiar entre rememoração e imaginação por Maria Auxiliadora no interior de Minas Gerais às transformações sociais, culturais e urbanas de São Paulo.

Segundo a curadora, um dos aspectos mais marcantes da exposição foi a qualidade da relação estabelecida entre o público e as obras. A proposta expográfica foi pensada para criar um ambiente de contemplação e pausa, permitindo que os visitantes se aproximassem das pinturas em seu próprio ritmo e percebessem o vocabulário visual singular e as escolhas estéticas que caracterizam o trabalho de Maria Auxiliadora Silva.

“O que mais me surpreendeu foi perceber a diversidade de formas pelas quais o público se relacionava com as pinturas. Cada visitante parecia encontrar um percurso próprio pela exposição, guiado por detalhes diferentes que despertavam interesse e abriam novas possibilidades de reflexão sobre a obra”, afirma Bruna.

A recepção positiva do público também se refletiu no interesse pelas questões temáticas presentes nos trabalhos da artista. As obras despertaram discussões sobre memória, identidade, relações sociais, trabalho, e os processos de transformação vividos pelo Brasil ao longo do século XX.

Outro destaque da mostra foi a vitrine com documentos e materiais de arquivo que contextualizavam historicamente a trajetória de Maria Auxiliadora. O conjunto permitiu aos visitantes compreender não apenas a riqueza visual de sua produção, mas também os contextos culturais, sociais e históricos que atravessaram sua prática artística.

Há mais de uma década desenvolvendo projetos curatoriais e exposições em galerias e instituições culturais no Brasil, Bruna observa que muitos dos temas presentes na obra de Maria Auxiliadora Silva encontram ressonância no contexto norte-americano.

“Apesar das diferenças entre os contextos brasileiro e norte-americano, ambos compartilham questões fundamentais relacionadas aos legados da escravidão, às relações raciais e às permanências dessas experiências na cultura contemporânea. Esse terreno comum evidenciou como as questões mobilizadas pela obra de Maria Auxiliadora extrapolam o contexto brasileiro, encontrando forte ressonância junto ao público norte-americano.

Ao mesmo tempo, a obra de Maria Auxiliadora Silva desafia as categorias às quais historicamente foi associada, abrindo múltiplas possibilidades de interpretação e constituindo um campo fértil para novas pesquisas e leituras críticas”, explica.

A decisão de levar Maria Auxiliadora para os Estados Unidos também nasceu da percepção de que sua obra ainda tem muito a contribuir para as discussões internacionais sobre arte brasileira e modernidade. Com uma trajetória interrompida precocemente, aos 39 anos, sua produção permaneceu durante décadas menos conhecida do que a de outros nomes da arte brasileira.

“Maria Auxiliadora teve uma carreira muito curta, mas sua obra possui uma força extraordinária. Sua produção mobiliza questões que dialogam profundamente com debates contemporâneos e merece alcançar públicos cada vez mais amplos”, destaca a curadora.

SOBRE MARIA AUXILIADORA SILVA

Maria Auxiliadora Silva nasceu em 1935, em Campo Belo, Minas Gerais, e mudou-se ainda criança para São Paulo. Filha de Maria Almeida da Silva e João Cândido da Silva, cresceu em uma família numerosa e criativa, sendo incentivada pela mãe, também artista, a desenvolver atividades ligadas ao desenho, bordado e pintura.

Ela deixou de frequentar a escola aos 12 anos de idade para ajudar no sustento de sua família. Passou então a trabalhar como empregada doméstica, só retornando ao ensino formal em 1972, aos 37 anos. Com 19, trabalhava como bordadeira em uma fábrica no Brás, em São Paulo. 

Oriunda de uma família trabalhadora, conciliou por muitos anos sua produção artística com outras atividades profissionais até dedicar-se integralmente à arte a partir de 1968. Nesse período, passou a integrar um importante grupo de artistas negros da cidade de Embu das Artes, que promovia encontros, exposições e ações de circulação artística durante os anos da ditadura militar brasileira.

Sua obra se destaca pela construção de cenas densamente povoadas, pelo uso expressivo das cores e pela combinação singular de pintura, relevo e textura. Em seus trabalhos, retratou festas populares, celebrações religiosas, cenas do cotidiano, relações afetivas, trabalhadores rurais e a vida urbana brasileira, criando um universo visual marcado pela memória, imaginação e observação social.

Embora tenha falecido precocemente em 1974, aos 39 anos, Maria Auxiliadora deixou um legado artístico que vem sendo progressivamente redescoberto por museus, pesquisadores, curadores e instituições culturais no Brasil e no exterior. Atualmente, sua produção é reconhecida como uma contribuição fundamental para a história da arte brasileira do século XX, especialmente pela forma como articula questões de raça, classe, território, identidade e experiência urbana.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Edições Sesc São Paulo lançam Elza Soares: insurreição na garganta


No livro, a jornalista e pesquisadora Lígia Moreli analisa como Elza Soares transformou a própria trajetória, marcada por pobreza, racismo, misoginia e violência, em força criadora e ato político
 

 

Quatro anos após a morte de Elza Soares, em janeiro de 2022, as Edições Sesc São Paulo publicam Elza Soares: insurreição na garganta, da jornalista e pesquisadora Lígia Moreli. O livro propõe uma leitura da trajetória da cantora, investigando o que a autora chama de "estética-política", isto é, o modo como Elza transformou sua própria existência, marcada por pobreza, racismo, misoginia e violência, em força criadora e ato político.

O período entre o lançamento do álbum A mulher do fim do mundo (2015) e a apresentação no Rock in Rio de 2019, é o recorte escolhido por Moreli, justamente quando a cantora, perto dos 90 anos, vivia uma efervescência criativa renovada. Com parcerias com jovens músicos da cena paulistana e produção de Guilherme Kastrup, Elza soava mais contestadora do que nunca, articulando em suas canções questões sobre racismo, machismo, etarismo e violência de gênero, consolidando seu papel como uma das vozes políticas mais incisivas da música brasileira.

A trajetória reconstruída no ensaio vai da favela Moça Bonita, na zona oeste do Rio de Janeiro, ao palco do maior festival de música do país. Passa pela caloura que entrou no programa de Ary Barroso dizendo vir "do planeta Fome", pelas décadas de ostracismo nos anos 1970 e 1980, pelo resgate apoiado por Caetano Veloso e pela consagração internacional, quando a BBC de Londres a elegeu como "cantora do século XX". A análise apoia-se em referenciais que atravessam feminismo, psicanálise, política, mídia e estudos de imagem — entre eles Suely Rolnik, Jacques Rancière, Lélia Gonzalez, Paul Gilroy e Stuart Hall —, situando Elza como figura que articulou tecnologias ancestrais de resistência à cena cultural e política do século XXI.

Gestora de comunicação do Sesc São Paulo, Lígia Moreli acompanhou de perto as performances de Elza ao longo de anos na instituição. O livro é enriquecido por entrevistas realizadas entre 2022 e 2023 com artistas e pesquisadores que cruzaram com a cantora. O prefácio é assinado pela cantora e pesquisadora Fabiana Cozza. O volume reúne ainda fotografias do acervo da instituição, com design assinado pela Casa Rex.
 

SOBRE A AUTORA

Lígia Moreli é jornalista pela PUC-Campinas e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Atua como gestora de comunicação no Sesc São Paulo desde 2023. Sua trajetória na instituição, onde também foi gerente adjunta das unidades de Sorocaba e Pinheiros, é marcada pelo desenvolvimento de projetos culturais, com ênfase na música.

sábado, 4 de julho de 2026

PND: inscrições são prorrogadas até 10/7

PND: inscrições são prorrogadas até 10/7

Participantes devem se inscrever no Sistema PND. Prazo também foi prorrogado para solicitações de atendimento especializado e uso de nome social. Prova será aplicada em 20 de setembro
 

Foto: Fábio Nakamura/MEC


As inscrições para a Prova Nacional Docente (PND) 2026 foram prorrogadas até o dia 10 de julho e devem ser realizadas, exclusivamente, no Sistema PND. O novo prazo também vale para as solicitações de atendimento especializado e para o uso do nome social. A taxa de inscrição é de R$ 85 e poderá ser paga até 14 de julho.
 

O resultado das solicitações de atendimento especializado será divulgado em 14 de julho, com período para interposição de recursos entre os dias 14 e 16 de julho. O resultado final dos recursos será divulgado em 20 de julho.
 

A aplicação da prova está mantida para o dia 20 de setembro, e o resultado final será divulgado em 15 de dezembro.
 

Cronograma:

Inscrições: até 10 de julho.

Solicitação de atendimento especializado e uso do nome social: até 10 de julho.

Pagamento da taxa de inscrição: até 14 de julho.

Aplicação da prova: 20 de setembro.

Divulgação do resultado final: 15 de dezembro.
 

PND – A avaliação é composta por duas partes. A parte de Formação Geral Docente conta com 30 questões objetivas e uma questão discursiva, que visa analisar aspectos como clareza, coerência, coesão, argumentação e domínio da norma-padrão da língua portuguesa. Já a parte de Componente Específico tem 50 questões de múltipla escolha, voltadas para situações-problema e estudos de caso da área de formação do participante. Serão avaliadas 21 áreas de licenciatura.
 

Por meio da prova teórica do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade das Licenciaturas), a PND tem como objetivo avaliar a formação de concluintes das licenciaturas. A avaliação também subsidia parte dos processos seletivos e concursos públicos realizados nos âmbitos federal, estadual e municipal para ingresso na carreira docente da educação básica pública.

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

MEC Livros atinge mais de 1 milhão de usuários

Foto: Divulgação/MEC



A plataforma já conta com mais de 25 mil livros disponíveis e 593.387 aluguéis. O acesso é gratuito e democratiza o acesso à literatura, incentiva o hábito e promove a integração de novas tecnologias na educação
 

 

A plataforma MEC Livros já atingiu a marca de mais de 1 milhão de usuários cadastrados e de 593.387 obras alugadas. Lançado no início de abril, o aplicativo disponibiliza mais de 25 mil títulos de autores nacionais e internacionais que podem ser alugados por qualquer pessoa que tenha uma conta Gov.br. A iniciativa contribui para preservar o patrimônio literário, ao mesmo tempo em que democratiza o acesso à literatura, incentiva o hábito de leitura, promove a integração de novas tecnologias na educação e apoia as práticas pedagógicas. O MEC Livros possui 1.834 obras de domínio público e, nos últimos 30 dias, havia 355.912 usuários ativos. Dentre os livros alugados, 2.827 tiveram o empréstimo estendido por 24.594 usuários.
 

O MEC Livros foi organizado a partir de critérios que valorizam a diversidade literária, cultural e linguística e conta com uma série de ferramentas voltadas para facilitar a experiência do usuário. Além de permitir a personalização da leitura e o uso de notificações automatizadas sobre as obras, o aplicativo separa os exemplares por categorias, o que permite uma navegação mais assertiva. A biblioteca digital conta com diversidade de gêneros, que vão de romance e ficção a histórias em quadrinhos e literatura de cordel.
 

Atualmente, os cinco livros mais lidos na plataforma são: Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior (6.383); Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski (6.006); A Vegetariana, de Han Kang (4.459); A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli (3.862); e Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski (2.472).
 

Inglês e espanhol – O MEC Livros disponibiliza obras em suas versões originais, em inglês e espanhol. Recentemente, foram incorporadas 7.832 publicações, com destaque para clássicos da literatura de língua inglesa, mas também com representação de sucessos contemporâneos. Entre os autores disponíveis estão William Shakespeare, Virginia Woolf, George Orwell e Emily Brontë, em inglês; e Gabriel García Márquez, Federico García Lorca e Teresa Orbegoso, em espanhol.
 

Com a atualização, o MEC Livros possui 17.610 obras em português, 6.468 em inglês e 2.724 em espanhol, ampliando o acesso gratuito dos brasileiros a diferentes tradições literárias e culturais.

 

Passo a passo – Para ter acesso às obras, basta acessar o site ou o aplicativo do MEC Livros e fazer o login com a conta do Gov.br. Na primeira página, já aparece uma lista de livros disponíveis, organizados por categorias como “Em Alta”, “Best-Sellers”, “Autores Clássicos Brasileiros”, entre outras. Ao clicar na capa da obra que deseja pegar emprestado, há a opção de ler o resumo sobre a obra no botão “Mais informações”. Após clicar nesse botão, abrirá uma nova página que contém o botão “Emprestar e Ler”, basta selecioná-lo e o livro estará à disposição para leitura.
 

MEC Livros – A plataforma MEC Livros foi criada para democratizar o acesso à leitura, oferecer livros que contribuam para a aprendizagem e formação de estudantes, difundir o patrimônio literário, incentivar o hábito de leitura, modernizar o ensino e promover a integração de novas tecnologias na educação. Para ampliar o acervo, o MEC firmou parceria com a Fundação Biblioteca Nacional e está em tratativas com instituições, como a Academia Brasileira de Letras (ABL), a Edições Câmara, o Instituto Mojo e a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).
 

O app foi organizado a partir de critérios que valorizam a diversidade literária, cultural e linguística e conta com uma série de ferramentas voltadas à experiência do usuário, como integração com o Gov.br, personalização de leitura e notificações automatizadas. A plataforma também tem foco na acessibilidade, com opções de ajuste de fonte e contraste, suporte para pessoas com dislexia e compatibilidade com leitores de tela.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Embrapa Cerrados firma parceria com empresa angolana para desenvolver tecnologias voltadas à produção de alimentos

 Foto: Juliana Caldas

Evento de assinatura do documento na Embrapa Cerrados

Com o objetivo de ampliar a oferta de alimentos e fortalecer a sustentabilidade da produção agrícola em Angola, a Embrapa Cerrados e a Companhia Agrícola do Sul S.A. assinaram, nesta sexta-feira (26), um Acordo de Cooperação Técnica e Financeira para o desenvolvimento de inoculantes microbianos destinados às culturas de soja, feijão e milho.

A parceria prevê a realização de atividades conjuntas de pesquisa, desenvolvimento e inovação voltadas à adaptação e aplicação dessas tecnologias nos sistemas produtivos angolanos, buscando elevar o desempenho agrícola e ambiental das lavouras. A coordenação técnica dos trabalhos será conduzida pelo pesquisador da Embrapa Cerrados Fábio Bueno, com a participação dos pesquisadores Ieda Mendes, Cícero Pereira e Luiz Gustavo Moretti.

O chefe-geral da Embrapa Cerrados, Jorge Werneck, destacou o potencial da iniciativa para gerar benefícios concretos aos dois países por meio da ciência e da inovação. Segundo ele, a parceria representa uma oportunidade de transformar conhecimento em desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida da população. “Temos tudo para fazer um grande trabalho em ciência e tecnologia voltadas ao desenvolvimento dos nossos países e à melhoria da qualidade de vida das pessoas. Tenho certeza de que estamos em um bom caminho”, afirmou.

Responsável por conduzir a articulação da parceria, o pesquisador José Roberto Peres classificou a iniciativa como um marco na cooperação entre a Embrapa e a África. Segundo ele, o projeto figura entre as primeiras parcerias da instituição no continente africano envolvendo diretamente o setor privado, modelo que considera fundamental para fortalecer as ações de pesquisa e transferência de tecnologia.

Peres ressaltou a expectativa de que a iniciativa se torne uma referência para futuras cooperações internacionais da Embrapa. “Acreditamos que só vamos consolidar uma parceria efetiva em pesquisa e transferência de tecnologia se ela envolver o setor privado. Essa é uma semente que está sendo plantada e que vai gerar muitos frutos. Temos grandes perspectivas e queremos unir a competência do setor produtivo às tecnologias desenvolvidas pela Embrapa”, destacou.

Para João Saraiva, administrador-executivo da Companhia Agrícola do Sul, a cooperação entre Brasil e Angola tem potencial para gerar impactos ainda maiores do que os inicialmente previstos. Segundo ele, o projeto contribuirá para a segurança alimentar, a transferência de tecnologia, a capacitação de recursos humanos e o fortalecimento da produção agrícola angolana nos próximos anos.

Saraiva também ressaltou a importância estratégica da parceria para a projeção internacional do Brasil. “A África é a grande oportunidade da afirmação do Brasil. Este projeto, além de todo o impacto que terá na segurança alimentar em Angola, será também um espaço importante de afirmação do Brasil no mundo e do Brasil na África, algo fundamental para a economia brasileira”, afirmou.

A Companhia Agrícola do Sul (CAS) é uma empresa privada angolana do setor agropecuário, voltada à produção agrícola e ao desenvolvimento do agronegócio no país. A companhia participa de iniciativas de cooperação internacional destinadas à modernização da agricultura angolana, incluindo ações de transferência de tecnologia, capacitação de recursos humanos e adoção de sistemas produtivos inspirados na experiência do Cerrado brasileiro.



Núcleo de Comunicação Organizacional - NCO
Embrapa Cerrados

Do Cerrado à África: ciência busca caminhos para produzir mais alimentos em um clima extremo

 Secas mais frequentes, temperaturas mais alta e a necessidade de alimentar uma população mundial crescente exigem novas soluções para a agricultura tropical.

Com 60% das terras agricultáveis ainda não exploradas do mundo, o continente africano busca adaptar tecnologias desenvolvidas no Cerrado para enfrentar a fome, gerar empregos e fortalecer a segurança alimentar, ampliando a oferta global de alimentos. A transformação do Cerrado em uma das principais regiões agrícolas do mundo pode servir de modelo para o desenvolvimento sustentável das savanas africanas, segundo Abdukrazak Ibrahim, coordenador do Fórum para Pesquisa Agrícola na África (Fara).

“Temos dois biomas semelhantes. A ciência transformou um — o Cerrado brasileiro — e pode transformar o outro — a Savana africana”, afirmou Ibrahim. Segundo o pesquisador, a África reúne cerca de 60% das terras aráveis não cultivadas do planeta e pode protagonizar a próxima grande revolução agrícola mundial. A discussão ocorreu durante o painel Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, realizado no X Simpósio Nacional Cerrado e III Simpósio Internacional Savanas Tropicais, promovido pela Embrapa Cerrados.

O pesquisador destacou, porém, que o objetivo não é reproduzir a experiência brasileira de forma idêntica. “O objetivo não é copiar o Brasil. Precisamos adaptar as tecnologias e conhecimentos às diferentes realidades africanas, construindo soluções adequadas à diversidade do nosso continente”, explicou.

Ibrahim lembrou que a transformação da agricultura brasileira foi resultado de cinco décadas de investimento em ciência e inovação. Para a África, o desafio é urgente. De acordo com projeções da Organização das Nações Unidas (ONU), o continente deverá abrigar cerca de 2,5 bilhões de habitantes em 2050. Atualmente, os países africanos importam aproximadamente US$ 100 bilhões em alimentos por ano.

Ao mesmo tempo, ele vê um cenário promissor. A África dispõe de cerca de 600 milhões de hectares de terras agricultáveis, uma população predominantemente jovem e amplo potencial para aumentar a produtividade agrícola. “Milhões de novos empregos podem surgir a partir desse processo”, destacou.

Nesse contexto, Ibrahim ressaltou a importância da cooperação Sul-Sul e do intercâmbio de conhecimento com o Brasil. Para ele, a experiência da Embrapa, especialmente no desenvolvimento de tecnologias para ambientes tropicais, pode contribuir para acelerar a modernização da agricultura africana.

Uma das iniciativas apontadas como estratégicas é a formação de recursos humanos. Mais de 3 mil estudantes e profissionais de 20 países africanos já participaram de programas de capacitação no Brasil. O próprio Ibrahim foi bolsista na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, durante o doutorado. “É possível tirar nossos países da fome. O Brasil mostrou que a transformação é viável e oferece uma experiência capaz de inspirar mudanças que podem beneficiar milhões de pessoas”, afirmou.

Segundo o coordenador da Fara, o fortalecimento da pesquisa agrícola, o investimento público de longo prazo, a melhoria genética de espécies vegetais e animais, a mecanização agrícola e a inovação tecnológica são elementos centrais para ampliar a produção de alimentos no continente. Como exemplo, ele citou avanços recentes em diferentes países africanos: a autossuficiência em trigo na Etiópia, o aumento da produção de mandioca na Nigéria, os ganhos de produtividade do milho em Gana, as plataformas digitais de agricultura no Quênia e os sistemas de gestão integrada da terra em Ruanda.

Apesar dos progressos, ainda há grande margem para crescimento. A produtividade média do milho na África é de 2,2 toneladas por hectare, enquanto produtores mais tecnificados alcançam entre 10 e 12 toneladas por hectare.

Para Ibrahim, a parceria entre Brasil e África pode ser decisiva para enfrentar os desafios da segurança alimentar global. “Há muito que a África pode aprender com o Brasil, assim como há muito que o Brasil pode aprender com a África. Juntos, podemos transformar esse potencial das savanas em realidade”, concluiu.

Como as mudanças climáticas afetam o campo e a comida na mesa dos brasileiras

Enquanto Brasil e África discutem caminhos para ampliar a produção de alimentos nas savanas tropicais, cientistas alertam que o sucesso dessa missão dependerá da capacidade de enfrentar as mudanças climáticas e conservar a biodiversidade. O aumento das temperaturas, a redução das chuvas e a degradação dos ecossistemas já afetam a agricultura, encarecem a produção e podem comprometer a segurança alimentar de milhões de pessoas nas próximas décadas.

O debate promovido pela Embrapa Cerrados no dia 23 trouxe um alerta: produzir mais alimentos no futuro dependerá da conservação dos recursos naturais e da adaptação da agropecuária a um clima cada vez mais instável.

As palestras da professora da Universidade de Brasília (UnB), Mercedes Bustamante, e do pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), Eduardo Assad, mostraram que as crises climática e de biodiversidade estão profundamente conectadas e já produzem impactos sobre a disponibilidade de água, a produtividade agrícola e a vida das populações rurais e urbanas.

Segundo Bustamante, as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade formam “crises gêmeas” que não podem ser tratadas separadamente. Hoje, a mudança no uso da terra é o principal fator de perda de biodiversidade. Mas a cientista alerta que o aquecimento global tende a se tornar a principal causa desse problema nas próximas décadas.

“O destino do Cerrado tem impacto muito grande pela sua conectividade com todos os outros biomas brasileiros”, afirmou. Ocupando cerca de 23% do território nacional, o bioma funciona como elo entre Amazônia, Caatinga, Pantanal e Mata Atlântica, desempenhando papel fundamental na regulação climática e hídrica do país.

Estudos apresentados pela pesquisadora mostram que a conversão da vegetação nativa para outros usos já tornou o Cerrado mais quente e mais seco. Entre 2006 e 2019, houve redução de cerca de 10% na evapotranspiração — processo responsável por devolver umidade à atmosfera — e aumento da temperatura superficial em áreas de intensa expansão agrícola, especialmente na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

“A proteção da biodiversidade passa a ser considerada uma estratégia essencial para a mitigação das mudanças climáticas”, destacou Bustamante. Segundo a professora, ecossistemas saudáveis ajudam a regular o clima, armazenar carbono, conservar a água e sustentar a produção de alimentos.

Já Eduardo Assad apresentou dados de que os efeitos das mudanças climáticas sobre a agropecuária brasileira deixaram de ser projeções para se tornarem realidade. Informações da Embrapa indicam que eventos climáticos extremos provocaram perdas acumuladas de cerca de R$ 300 bilhões na agricultura brasileira entre 2000 e 2024. “O mundo está ficando mais quente e mais seco e não estamos prestando atenção nisso. Isso compromete muito a agricultura”, afirmou.

Mapas climáticos apresentados pelo pesquisador mostram redução das chuvas, aumento da frequência das secas e elevação das temperaturas em importantes regiões produtoras do Cerrado. Em alguns locais, a estação chuvosa já encurtou em cerca de 22 dias, reduzindo a disponibilidade de água para as lavouras.

Assad alertou que a combinação entre temperaturas mais elevadas e deficiência hídrica pode comprometer culturas estratégicas para o abastecimento de alimentos. Estudos indicam, por exemplo, perdas de produtividade da soja e do milho em cenários de aquecimento e escassez de água.

Apesar dos desafios, os pesquisadores ressaltaram que existem soluções. A recuperação de pastagens degradadas, a ampla adoção de sistemas integrados de produção, como Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), o manejo sustentável do solo, a restauração de áreas degradadas e a conservação da vegetação nativa figuram entre as estratégias capazes de aumentar a produção de alimentos de forma sustentável.

“Sem desmatamento e queimadas, o Brasil pode ser o maior sumidouro de carbono do planeta”, garantiu Assad. Para o pesquisador, o país reúne conhecimento científico, tecnologia e recursos naturais suficientes para conciliar produção agrícola, conservação ambiental e adaptação climática.

Quando preservar também gera lucro

Se o desafio é produzir mais alimentos sem ampliar o desmatamento, experiências já em andamento mostram que isso é possível. Durante o painel sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, o gerente sênior de Projetos de Sustentabilidade da Syngenta, Jonas Oliveira, apresentou resultados do programa Reverte, iniciativa que apoia a recuperação de áreas degradadas por meio de crédito, assistência técnica e adoção de boas práticas agrícolas e mostra que a recuperação de áreas degradadas, a sustentabilidade e a rentabilidade podem caminhar juntas no campo.

Segundo Oliveira, a sustentabilidade deixou de ser vista apenas como uma questão ambiental para se tornar uma estratégia de negócios. “Hoje, quando olhamos para a sustentabilidade, estamos falando da perenidade dos negócios rurais e o produtor rural já entende isso”, afirmou.

Criado em 2019, o programa reúne parceiros públicos e privados e já recuperou mais de 280 mil hectares em cerca de 400 propriedades rurais. Foram desembolsados mais de R$ 2 bilhões em financiamento para a conversão de áreas degradadas em sistemas produtivos mais sustentáveis.

Um dos exemplos apresentados foi o de uma fazenda em Itaúba (MT), que aderiu ao programa em 2021, o primeiro produtor que aderiu ao programa Reverte. A área de 4 mil hectares, anteriormente degradada, passou a adotar plantas de cobertura, manejo conservacionista do solo e rotação de culturas. Em poucos anos, passou a produzir soja, milho e algodão em níveis competitivos.

Os resultados também apareceram na rentabilidade. Segundo Oliveira, em outra propriedade atendida pelo programa, em Açailândia (MA) o faturamento da propriedade saltou de cerca de R$ 1 mil, em 2023, para R$ 10 mil por hectare ao ano. Além disso, a fazenda mantém mais de 50% de sua área com vegetação nativa preservada, realiza restauração ambiental e gera empregos diretos na região. “O programa cresce porque cria oportunidade de negócio para todos os envolvidos. O produtor ganha produtividade, reduz riscos e valoriza sua terra”, destacou.

A experiência reforça que a ciência e a inovação já oferecem caminhos para aumentar a produção agropecuária, recuperar áreas degradadas e conservar os recursos naturais, tornando sustentabilidade e rentabilidade objetivos possíveis.

 

Núcleo de Comunicação Organizacional - NCO
Embrapa Cerrados

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Governo do Brasil torna voluntária certificação dos armazéns no país

 Com a sanção da nova legislação, a Conab poderá expandir a rede credenciada de armazéns privados, contribuindo para o aumento da capacidade armazenadora da produção agropecuária

Na última sexta-feira (05), foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) a Lei nº 15.429/2026, que estabelece a adesão facultativa ao sistema de certificação de unidades armazenadoras de produtos agropecuários. Com essa nova legislação, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) poderá expandir sua rede credenciada de armazéns privados, uma vez que era impedida legalmente de registrar como aptos aqueles armazéns os quais não estivessem com a certificação regular.

A medida, que representa um avanço na modernização do ambiente regulatório do segmento, também permitirá a ampliação da infraestrutura de armazenagem nacional, ao regularizar a situação de unidades públicas e privadas, contribuindo, assim, para o aumento da capacidade armazenadora de produtos agrícolas no país.

O texto traz uma nova redação a Lei nº 9.973/2000, a qual estabelecia a certificação como um requisito legal para o funcionamento do armazém. Com a nova legislação que torna todo esse processo de autenticação voluntário, os quase 83% dos armazéns brasileiros não-credenciados têm a oportunidade de estar legalmente habilitados para fazer estoque de produtos agropecuários, caso se adequem as demais normas, já determinadas por lei, e sejam aprovados nos procedimentos regimentais de documentação e vistoria realizados pelos órgãos responsáveis.

O diretor de Operações e Abastecimento da Conab, Arnoldo de Campos, ressaltou que a nova legislação representa um avanço para a ampliação da infraestrutura de armazenagem no país ao reduzir entraves burocráticos e estimular novos investimentos no setor. "Essa lei vem para simplificar o processo de credenciamento dos armazéns, dispensando a certificação que antes era obrigatória. Isso é muito importante para que a gente possa ter uma redução nos custos e aumento dos investimentos para a aprimoração da infraestrutura de armazenagem no Brasil. Com essa certificação eram impostos custos para uma adequação que muitas vezes não eram necessários, o que engessava até mesmo a articulação da Conab junto a rede privada, principalmente onde a Companhia precisava atuar mas não havia a existência de armazéns com a certificação regular. O Brasil já possui uma legislação rigorosa para garantir a qualidade dos alimentos que são estocados, para a gestão ambiental dessas unidades, assim como questões tributárias e fiscais, e mais essa certificação passava a ser um entrave para a expansão da capacidade armazenadora brasileira", destaca ele.

Atualmente, pouco mais de 17% dos armazéns brasileiros possuem certificação. Esse cenário demonstra a já existência de mecanismos complementares capazes de garantir elevados padrões operacionais e de qualidade nas atividades de armazenagem. Entre os benefícios esperados com a mudança está também a redução dos custos operacionais. Até então, a certificação obrigatória era realizada por organismos privados acreditados pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), o que gerava despesas adicionais para parte dos empreendimentos e da cadeia produtiva. Com a desobrigação da certificação, o setor passa a contar com maior flexibilidade para decidir sobre a certificação de acordo com suas estratégias comerciais e as demandas do mercado.

Nas últimas décadas, o crescimento acelerado da produção agropecuária ampliou significativamente a demanda por estruturas de armazenagem. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que, nos últimos dez anos, a produção de grãos cresceu, em média, 6,72% ao ano, enquanto a capacidade de armazenamento avançou apenas 2,38% no mesmo período. Atualmente, o Brasil possui capacidade para armazenar cerca de 60% a 63% da produção anual de grãos, acumulando déficit superior a 130 milhões de toneladas.

A nova legislação não altera os mecanismos de controle sanitário nem os procedimentos de fiscalização dos produtos agropecuários armazenados. A qualidade e a segurança desses produtos continuam sendo asseguradas por instrumentos regulatórios permanentes, como os normativos de Operações da Conab, os padrões oficiais de classificação do Ministério de Agricultura e Pecuária, auditorias realizadas por empresas do setor e exigências de rastreabilidade e boas práticas de armazenagem.

A mudança também não impacta o acesso dos produtos brasileiros aos mercados internacionais. A certificação permanece disponível para atender demandas específicas de clientes e mercados, enquanto os requisitos sanitários e fitossanitários exigidos pelos parceiros comerciais do Brasil seguem sendo garantidos por instrumentos próprios, independentes da certificação de armazéns.

Exposição de Maria Auxiliadora Silva encerra temporada em Nova York ampliando debate sobre arte brasileira

  Com curadoria de Bruna Grinsztejn, a mostra reuniu pinturas que despertaram discussões sobre memória, identidade, relações sociais, trabal...