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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A tecnologia com o pé no chão da sala de aula


(*) Antônio Sérgio Martins de Castro

          Assim que os primeiros computadores começaram a chegar às escolas, ainda na década de 1980, começaram a ser notadas certas dificuldades que marcariam, desde então, a disseminação do uso da tecnologia como estímulo à aprendizagem. Alguns equívocos e preconceitos tornaram-se marcas ainda atuais. Por exemplo, a ideia de que primeiramente se investe em infraestrutura, depois em formação.
          Ainda hoje, basta entrar na conversa de uma roda de educadores – gestores ou professores – para descobrir quantos equipamentos de alta tecnologia estão parados ou subaproveitados. Vários colégios têm sites muitas vezes não-atualizados e sem uso efetivo pela comunidade. No início, era assim com os PCs, hoje são as lousas eletrônicas e outros dispositivos. Tudo porque a tecnologia chegava (e continua chegando) à escola como uma visita formal e incômoda. Todos sabem que é necessária, oportuna, importante, mas ninguém se preparou para recebê-la tão rapidamente e muitos até se constrangem pela falta de intimidade.
          Qual é a razão para esse estado de coisas? Há muitos nomes e formas, mas poderíamos talvez traduzi-lo como a necessária transição cultural que deve acontecer nas instituições de ensino. Isso englobaria todos os graus de distanciamento que separam os educadores do pleno uso do potencial tecnológico, que hoje poucos discutem. Há quem fale em diferenças geracionais (os chamados nativos analógicos x nativos digitais), em atitudes individuais que variam dos resistentes aos iniciados, ou no desencontro entre projeto pedagógico e recursos da informática. O fato é que estamos em um ponto em que, se não ampliarmos as discussões sobre a importância do uso da tecnologia na aprendizagem, estaremos longe de uma escola onde as imensas possibilidades desses recursos sejam bem aproveitadas.
          No universo educacional, basta ver como a tecnologia chega à escola vestida de uma aura que não contempla o fazer diário e as demandas imediatas do professor. O mesmo educador que usa diariamente os recursos do internet banking só usa a tecnologia em seu trabalho para digitar provas, e olhe lá. Ele um dia poderá até fazer bom uso daquilo, mas há uma enorme distância entre suas práticas atuais (sedimentadas no tempo da cultura escolar, que é caracteristicamente conservadora) e os recursos disponibilizados.
          Em suma, é preciso fazer com que o professor sinta a tecnologia como uma demanda imediata, que seja incorporada ao seu trabalho como ferramenta, para que então comece a se criar um círculo virtuoso, no qual mais uso gera mais demanda, e vice-versa. É preciso a picadinha de uma mosca, e não a dentada de um leão que atemoriza os docentes, especialmente os que já passaram da faixa dos 30 anos.
          Chegamos ao coração dessa reflexão. Para que nossa escola seja digital, é preciso que sejamos mais compreensivos com a realidade do professor, não para nos conformarmos com os limites, mas para ganharmos sucessivamente novos patamares de uso do potencial das ferramentas tecnológicas. Até porque há efetivamente diferentes graus de utilidades da informática, adequada aos mais diferentes momentos do trabalho do professor.
          Isso significa que precisamos conhecer melhor o trabalho do docente em sala de aula e procurar lhe oferecer recursos para aqueles momentos e situações reais. É preciso sair da lógica de criar projetos que envolvam tecnologia para a lógica de usar tecnologia para aprimorar o que é feito agora. Isso fará com que, no jargão da área, as ferramentas se tornem mais “amigáveis” e se incorporem de forma mais natural ao cotidiano do educador.
          Nos nossos sistemas de ensino Agora e Ético, desde o início procuramos olhar para a tecnologia como algo para o aqui e agora, sem esse viés futurista. Nosso foco continua sendo a realidade concreta vivida pelos professores, e isso implica desenvolver ferramentas para os diferentes perfis de uso. Os educadores das escolas parceiras têm e terão cada vez mais acesso a materiais que lhes permitam tornar suas aulas mais interativas, ricas, diversificadas e próximas do universo do aluno, sem nunca perder de vista os objetivos de aprendizagem.
          Assim, desenvolvemos numerosos recursos, que vão de aulas em softwares de apresentação mais conhecidos (como o PowerPoint), com animações e uso de diferentes mídias, ao desenvolvimento de materiais pedagógicos para leitura nos novos suportes que chegam ao mercado com perspectivas de uma difusão explosiva, como é o caso dos tablets.
          É essa diversidade de ferramentas, aplicáveis nos diferentes contextos de uso, que paulatinamente fará com que o professor veja a tecnologia como aliada e facilitadora de seu trabalho, e não como um desafio a mais, entre tantos outros a serem vencidos. E é assim que precisa ser.

(*) Antônio Sérgio Martins de Castro é gerente de mídias digitais da Divisão de Sistemas de Ensino da Editora Saraiva (www.souagora.com.br e www.sejaetico.com.br)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Tecnologia e mágica




“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica!”, diz a Terceira “Lei” formulada por Arthur C. Clarke, mais conhecido por ter escrito o conto “O Sentinela”, base para a obra-prima de Stanley Kubrick, “2001: Uma Odisséia no Espaço”.

A considerar esta “lei”, vivemos num mundo de mágica, pois a tecnologia faz parte do cotidiano, tanto que já não nos impressionamos nem mandamos queimar seus autores: cientistas e pesquisadores. O que persiste é que ainda há os que fazem ou usam isso para o bem ou para o mal, além do fato de usarmos essa “mágica” sem entender muito bem como ela funciona.

Não é muito diferente com a natureza:
Nós a usamos - tiramos dela suas mágicas - sem entender direito seus mecanismos e razões. Não é à toa que vivemos tempos de crise ambiental, movida pelo consumismo desenfreado.

Para mudar essa perspectiva de que a fantasia de hoje pode ser o pesadelo de amanhã, dando margem para que mistificadores, fanáticos, ignorantes ou mal-intencionados, voltem a demonizar a ciência e seus desdobramentos, o ideal é criar uma consciência ecológica desde a infância. Não falo de doutrinação, mas de construção do conhecimento que alie ciência, natureza e sociedade, reintegrando o ser humano ao meio ambiente pela consciência de que um e outro são indistinguíveis e fazem parte da mesma “mágica”.

O ideal seria que todas as escolas proporcionassem essa construção de conhecimento, só que laboratórios ainda são caros e seu uso nem sempre é adequado.
Mas, o que impede que mesmo pequenas cidades disponham de centros que, em diferentes níveis, propiciem aos alunos conhecimentos e experimentos científicos e tecnológicos?

Seria fantástico que se multiplicassem equipamentos como a “Cidade das Ciências”, de La Villete, em Paris; ou como a “Estação Ciência”, de São Paulo. Nada impede, no entanto, que sejam criados pequenos centros locais, que sirvam de apoio ao Ensino Fundamental e Médio, e também ao público em geral. Neles, poderia haver laboratórios onde os visitantes assistiriam ou fariam experiências nas áreas de Física, Química e Biologia, que explicassem fenômenos naturais de forma lúdica. Uma sala de projeção serviria para exibição de filmes de ficção científica, seguida de debates sobre os conhecimentos e tecnologias abordados, inclusive sob aspectos ambientais e éticos.

Aliar o fascínio do cinema - tecnologia e fantasia por excelência! - à proposta de formação de cidadãos íntegros e conscientes de suas potencialidades e papel perante o meio ambiente e a sociedade.
Que tal?
Afinal, se não podemos fazer superproduções educativas, que saibamos utilizar inteligentemente as comerciais, discutindo seus erros e acertos, revertendo o que alienam ou distorcem.
No mais, as tecnologias disponíveis permitem acesso à internet com baixo custo, potencializando videoconferências com cientistas e especialistas de empresas.

Esses pequenos centros funcionariam como ambientes para atividades externas às escolas; para a formação de docentes; para o desenvolvimento de projetos e pesquisas de interesse local ou regional; e para lazer. E tudo com a proposta de integrar ciência e tecnologia ao dia a dia, a cidade ao mundo, o ser humano à natureza.

Porque não ter ciência e tecnologia para todos, de forma criativa e divertida, desde a infância?
Formar gerações para o pensamento ecológico, que alie: natureza, tecnologias e suas interfaces é fundamental para reverter o quadro atual!


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