sexta-feira, 24 de abril de 2026

Como a interoperabilidade pode contribuir para ampliar a eficiência operacional no setor da saúde?

 


Por José Guilherme Merchiori
 

interoperabilidade no setor da saúde está diretamente ligada ao nível de maturidade e a capacidade de evolução das instituições, sendo um passo fundamental para ganhos de eficiência operacional. Entre os benefícios, destacam-se a redução do retrabalho administrativo, dos custos e da realização de exames duplicados, além da diminuição do impacto de glosas e da otimização de indicadores como TMA/TME e gestão de leitos. Esses avanços contribuem para maior assertividade em toda a jornada do paciente, desde a admissão até o desfecho clínico.
 

No entanto, a adoção tecnológica e a automação de processos ainda representam um desafio para diversas áreas do setor. Segundo dados do TIC Saúde 2024, pesquisa nacional conduzida pelo Cetic.br sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos estabelecimentos de saúde brasileiros, a Inteligência Artificial (IA) voltada à segurança digital já alcança 50% das instituições de saúde, entre públicas e privadas. Contudo, quando se trata de aplicações voltadas à eficiência nos tratamentos, esse percentual cai para 29%.
 

Ao mesmo tempo, o setor ainda enfrenta uma resistência relevante quanto à incorporação dessas ferramentas. De acordo com o levantamento, entre os principais motivos pela não integração de tecnologias, estão a falta de necessidade ou interesse (59%), a baixa priorização da integração (61%) e problemas de compatibilidade (46%). Existe ainda o declínio por motivação financeira (49%), o que revela desafios importantes a serem solucionados para uma gestão eficaz.
 

A fragmentação de dados e interoperabilidade
 

Paralelamente, existem preocupações relacionadas a interoperabilidade e a proteção das informações com a base na LGPD, especialmente quanto ao desafio de estruturar e compartilhar dados sem violar a legislação. Nesse contexto, iniciativas já em progresso buscam enfrentar esse cenário, como o RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde), projeto do SUS, que permite que médicos e enfermeiros acessem, de forma segura, o histórico clínico do paciente durante o atendimento, por meio do SUS Digital Profissional.
 

Embora não sofra com a escassez de dados, a principal dificuldade do setor de saúde está na falta de estrutura capaz de conectá-los, já que permanecem fragmentados. Diante disto, falta uma integração que permita reunir informações que vão do histórico clínico do paciente a registros relacionados a fraudes e auditorias, um desafio que, a interoperabilidade bem implementada solucionaria, aumentando a segurança e governança de dados.
 

Quando se constrói uma linha de cuidado clínico para o paciente, é importante que o histórico de tratamentos esteja disponível para consulta do profissional. O uso inteligente dessa informação contribui para a assertividade do atendimento, aprimoramento do cuidado com o paciente e redução de custos por meio da eficiência operacional, resultando em dados que permitam identificar as melhores estratégias de atendimento. Tendo estes dados clínicos, administrativos e financeiros integrados, é possível implementar a IA preditiva e analítica para melhorar ainda mais o cuidado com o paciente.
 

Uso da IA para aprimoramento e combate à fraude no setor
 

Tanto em sistemas hospitalares quanto em operadoras de saúde, o uso da IA antifraude tem se tornado fundamental. No entanto, a ausência de uma rede integrada a esse ecossistema limita a eficácia dessas soluções, especialmente na detecção de inconsistências entre sistemas assistenciais, faturamento e redes credenciadas. De acordo com uma pesquisa da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) de 2025, o número de notícias-crime relativas a fraudes contra as operadoras dos planos cresceu quase 70% em 2023, em relação a 2022.
 

O levantamento também revela que 55% dos entrevistados acreditam que as fraudes são um dos principais fatores responsáveis pelo aumento das mensalidades dos planos. Nesse contexto, a adoção de soluções de IA voltadas à prevenção e detecção de fraudes, alinhada à interoperabilidade de dados no setor, torna-se fundamental para evitar grandes prejuízos, apoiando na pré-auditoria, auditoria concorrente e pós-auditoria, automatizando detecções e priorizando casos críticos.
 

Previsibilidade por meio da análise de dados
 

Segundo o relatório anual de tendências hospitalares da HealthIT.gov, de 2025, existe uma pré-disposição internacional quanto ao uso de IA, com 71% dos hospitais utilizando IA preditiva integrada aos seus prontuários eletrônicos (PEP). O uso cresceu de 66% em 2023 para 71% em 2024, o que releva um desafio para o setor de saúde no Brasil, que enfrenta resistências para adesão integrada e automatizada.
 

A inteligência artificial já possibilita entender métricas e interpretar estrategicamente os dados processados por ela. A interoperabilidade pode atuar por meio de uma camada de dados robusta no setor de saúde, que combinada à IA, amplia a capacidade preditiva das instituições. Isso permite antecipar riscos de internação, reinternação, prever a demanda por atendimentos de pronto-socorro e otimizar processos como ajuste de escala assistencial, regulação de leitos, gestão de pacientes crônicos e planejamento de altas responsáveis.
 

A adoção da interoperabilidade atrelada a inteligência artificial, pode contribuir tanto para o operacional dentro do ecossistema do setor, quanto para o tratamento mais eficaz para os pacientes, que vai além do tratamento direcionado, trabalhando no que antecede a causa, como o acompanhamento e cuidado com o paciente, para que não trate somente a doença e seus malefícios, mas a prevenção para que não aconteça.
 

É fundamental que exista espaço de debate para implementação tecnológica no setor da saúde. A interoperabilidade estruturada, com o uso responsável de IA e governança de dados sólida, garantem uma eficiência operacional, que contribui para evolução, seja no atendimento, nas áreas assistenciais, TI, faturamento e regulação dos serviços hospitalares, operadoras e clínicas, tornando o cuidado com o paciente o passo primordial da evolução tecnológica.
 

 


 
















José Guilherme Merchiori é Diretor de Inovação e Tecnologia da Benner, empresa de tecnologia que oferece softwares de gestão empresarial e serviços de BPO para revolucionar e simplificar os negócios.
 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

“Temos que substituir o desalento pelo sonho. O ódio pela esperança”, diz Lula em Mobilização Progressista Global

 

Encerramento do evento em Barcelona, na Espanha, reuniu líderes progressistas para debater democracia, justiça social e fortalecimento do multilateralismo
 

Ao iniciar seu pronunciamento, o presidente Lula destacou que o campo progressista acumulou avanços importantes na garantia de direitos e ressaltou a relevância de reafirmar valores democráticos diante do avanço do extremismo. Fotos: Ricardo Stuckert/PR

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou neste sábado, 18 de abril, em Barcelona, na Espanha, do encerramento da Mobilização Progressista Global, encontro que reuniu lideranças políticas de diversos países em defesa da democracia, da justiça social e do fortalecimento da cooperação internacional. Em discurso na sessão plenária final, Lula afirmou ser necessário fortalecer a mobilização progressista para enfrentar desigualdades, proteger direitos e ampliar a participação democrática no cenário global.
 

Ao abrir sua fala, Lula parabenizou o presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, pela organização do encontro e ressaltou a importância de reafirmar valores democráticos diante do avanço do extremismo. “O que nós estamos fazendo aqui é o começo de um movimento que tem que agir todo santo dia, durante toda a semana, todo mês e durante 365 dias por ano, para que a gente restabeleça a coisa mais sagrada no mundo, que é a democracia e o multilateralismo”, afirmou.
 

O que nós estamos fazendo aqui é o começo de um movimento que tem que agir todo santo dia, durante toda a semana, todo mês e durante 365 dias por ano, para que a gente restabeleça a coisa mais sagrada no mundo, que é a democracia e o multilateralismo”
- Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República
 

Durante o pronunciamento, o presidente destacou que o campo progressista acumulou avanços importantes na garantia de direitos, mas ainda enfrenta o desafio de combater desigualdades estruturais e conter o avanço de discursos extremistas. “A situação dos trabalhadores, das mulheres, das pessoas negras e de muitas minorias é melhor hoje do que foi no passado. Não é coincidência que a reação das forças reacionárias tenha vindo de forma tão violenta, com a misoginia, o racismo e os discursos de ódio”, observou o presidente.
 

“Mas o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda praticam a austeridade”, alertou.
 

Para Lula, a incapacidade do campo progressista de romper com a lógica econômica neoliberal abriu espaço para que a extrema direita ocupasse o discurso de contestação, canalizando o descontentamento social para agendas regressivas e ataques a direitos.
 

“A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo. Canalizou a frustração das pessoas inventando bodes expiatórios: as mulheres, os negros, a população LGBTQIA+, os migrantes. Nosso papel é apontar o dedo para os verdadeiros culpados. Um punhado de bilionários concentra a maior parte da riqueza mundial. Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá.

Alimentam a falácia da meritocracia. Mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam algoritmos. A desigualdade não é um fato. É uma escolha política”, afirmou Lula.
 

DO LADO DO POVO – Segundo o presidente, o primeiro mandamento dos progressistas deve ser a coerência. “Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo. Mesmo que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós propomos. Quer comer e morar com dignidade. Escolas e hospitais de qualidade. Um meio ambiente limpo e saudável. Um trabalho decente, com jornada equilibrada. Um salário que permita uma vida confortável”, elencou. “O que faz de nós progressistas é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser estar sempre do lado do povo”, completou.
 

LUTA GLOBAL – No contexto global, Lula enfatizou que o fortalecimento do multilateralismo e a reorganização das instituições de governança global são cruciais para enfrentar conflitos armados, redirecionar recursos hoje destinados a armamentos para o combate à insegurança alimentar, proteger economias, fortalecer o comércio exterior e avançar na adaptação às mudanças climáticas.

“Essa luta precisa ser global. De nada adianta manter a casa em ordem em um mundo em desordem. Os senhores da guerra jogam bombas em mulheres e crianças. Gastam em armas bilhões de dólares que poderiam ser usados para acabar com a fome. O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências. É sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas”, afirmou.
 

 

MULTILATERALISMO – O presidente afirmou que ser progressista na arena internacional significa defender um multilateralismo reformado. “É defender que a paz prevaleça sobre a força. É combater a fome e proteger o meio ambiente. É restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes. É criar um sistema em que as regras valham para todos. Em que países desenvolvidos e em desenvolvimento estejam em pé de igualdade no Conselho de Segurança, no Banco Mundial, no FMI e na OMC”, destacou.
 

Lula apontou o fortalecimento das instituições multilaterais como caminho não apenas para promover a paz, mas também para enfrentar desafios que ultrapassam fronteiras, como a desinformação e a regulação das plataformas digitais. “Esse não é um esforço só de governos. A internet se tornou um campo de batalha. Disputar as redes virtuais é uma tarefa incontornável. Mas a disputa tem que ir além das telas. Tem que ser levada para as universidades, para as igrejas, para as associações de bairro. A extrema direita grita, mente e ataca. Não podemos ter medo de falar mais alto, de expor a verdade dos fatos, de contrapor argumentos. O risco que a extrema direita representa à democracia não é retórico, é real. No Brasil, ela planejou um golpe de Estado. Orquestrou uma trama que previa tanques nas ruas e assassinatos”, advertiu.
 

“O Papa Leão 14 disse que a democracia corre o risco de se tornar uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas. Nosso papel é desmascarar essas forças. Desmascarar aqueles que dizem estar ao lado do povo, mas governam para os mais ricos. Que se dizem patriotas, mas põem a soberania à venda e pedem sanções contra o próprio país. Que proclamam defender a família, mas fecham os olhos para a violência contra as mulheres e o abuso sexual de crianças. Que se declaram donos da verdade, mas espalham mentiras e desinformação. Que se consideram homens de Deus, mas não têm amor ao próximo. Que falam em liberdade, mas perseguem quem é diferente”, listou.
 


 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou neste sábado, 18 de abril, em Barcelona, na Espanha, do encerramento da Mobilização Progressista Global e parabenizou o presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, pela organização do encontro. Fotos: Ricardo Stuckert/PR

 

CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA – Lula deixou uma mensagem de esperança para aqueles que trabalham pela consolidação dos princípios democráticos em todo o planeta. “A democracia não é um destino, é uma construção cotidiana. Ela precisa ir além do voto e trazer benefícios concretos para a vida das pessoas. Não há democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo prato de comida. Não há democracia quando um neto perde o avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite em seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor da sua pele. Quando uma mulher morre por ser mulher. Temos que substituir o desalento pelo sonho. O ódio pela esperança”, afirmou.
 

MOBILIZAÇÃO PROGRESSISTA GLOBAL – Lula ressaltou que a Mobilização Progressista Global tem a missão de recuperar a capacidade das forças progressistas de projetar um futuro melhor. “Um futuro com justiça social, igualdade e democracia. Esses três termos – mobilização, global e progressista – precisam andar juntos. Não como palavras de ordem, mas como realidade viva. Uma pessoa não envelhece pela quantidade de anos, mas pela falta de motivação. A política só tem sentido quando se tem uma causa”, concluiu.

Pautada pela defesa da democracia, pelo fortalecimento das instituições e pelo combate à desigualdade, a Mobilização Progressista Global foi o segundo evento do qual o presidente Lula participou neste sábado para alertar sobre as tensões globais. Mais cedo, ele discursou na Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, também ao lado do presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez.

Na sexta-feira (17), os dois líderes defenderam a regulação das redes sociais durante declaração à imprensa e participaram de cerimônia de assinatura de atos no Palácio Real de Pedralbes — entre eles, um Memorando de Entendimento no campo de minerais críticos, voltado à ampliação da cooperação bilateral em toda a cadeia produtiva de insumos estratégicos essenciais para a transição energética, a transformação industrial e a segurança econômica dos dois países.

Aos 74 anos, finalista do Prêmio LeYa Portugal transforma perdas em arte no romance “As vontades do vento"

 


Jozias Benedicto encontrou na literatura um novo caminho de criação e expressão após os 60, e seu novo livro mistura realismo fantástico e memória para falar de tempo, família e reconstrução.

Artista visual e escritor, Jozias Benedicto transforma perdas pessoais e memórias familiares em ficção no romance “As vontades do vento” (Caravana Grupo Editorial, 195 págs), finalista do Prêmio LeYa Portugal de Literatura 2024.

O autor maranhense — que começou a publicar depois dos 60 — simboliza uma geração de criadores que encontram na maturidade o auge da experimentação e da liberdade artística. O autor, que já publicou nove livros, também já conquistou outras premiações como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais, o Prêmio da Fundação Cultural do Maranhão e o Prêmio de Literatura do Estado do Pará.

Em sua prosa, a vida, a morte e o tempo se confundem em vozes múltiplas que revelam o Brasil profundo e suas heranças emocionais. “O autor, com domínio absoluto da linguagem e da técnica narrativa, transpõe a estrutura do conto para a narrativa longa. O romance traz, na singularidade de cada capítulo, as diversas vozes, os lugares, cheiros e ambientações — tanto de um vilarejo do interior quanto das grandes cidades modernas — sem perder o contexto geral do que se quer contar”, ressalta Andreia Fernandes, escritora, na orelha do livro.

Neste novo trabalho, o artista visual e escritor maranhense apresenta um romance inquietante que mergulha nas entranhas de uma família envolta em segredos do clero, prostituição e herança escravocrata. Narrada por múltiplas vozes, a história ganha contornos de realismo fantástico ao incluir as perspectivas daqueles que já partiram, mas que seguem essenciais para o desfecho de uma trama que atravessa gerações.

Segundo Jozias, o livro reflete as contradições entre o Brasil tradicional e o país em busca de modernização, abordando os efeitos do desenvolvimento desigual, como a violência e o rompimento de vínculos familiares.

“Nunca quis escrever ensaio ou não ficção, nem um romance realista e engajado — meu caminho foi o oposto: desenvolver esses temas por meio da ficção e de suas vertentes mágicas e fantasiosas”, afirma o autor.

Vozes que se cruzam, memórias que se desfazem

Dividido em três partes — O InteriorA Travessia e A Capital — o romance reúne 49 capítulos narrados em primeira pessoa por diferentes personagens. O núcleo central é composto pelo pai, mascate (vendedor de porta em porta), a mãe e os três filhos — Joaquim, Pedro e Bento — além de figuras que orbitam o cotidiano da família, como Mocinha, a empregada, e Elisa, a cafetina.

A avó materna e seu irmão, o já falecido Monsenhor — tido como santo no vilarejo — são peças-chave no desenlace do enredo, situado em uma pequena cidade do norte do país, nos anos 1950.

O ponto de partida é a morte da mãe e a promessa dos filhos de cumprir seu último desejo. Antes da viagem, porém, o livro retorna ao passado e desvenda o percurso da família: da ascensão social vertiginosa à desolação que precipita a queda dos herdeiros.

A estrutura polifônica é o grande trunfo de “As vontades do vento”. Ao alternar os narradores, Jozias costura as pontas soltas e revela tanto o contexto dos acontecimentos quanto as motivações de cada personagem. Os episódios vistos sob diferentes ângulos ampliam a força dramática das cenas e sustentam um ritmo ao mesmo tempo compassado e instigante. O desfecho, de impacto emocional, confirma a sagacidade e a singularidade do escritor-artista.

Trajetória consolidada e uma coleção de prêmios

Nascido em São Luís (MA), em 1950, Jozias Benedicto mudou-se aos 15 anos para o Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte da vida. Entre 2006 e 2010, residiu em Brasília e, desde 2022, divide seu tempo entre o Brasil e Lisboa. Formado em Tecnologia da Informação, atuou na área entre 1970 e 2010. Após os 60 anos, decidiu dedicar-se integralmente às artes — especialmente à interseção entre literatura e artes visuais.

Cursou duas pós-graduações na PUC-Rio — Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo (2014-2015) e Corpo e Palavra nas Artes da Cena e da Imagem (2021-2022) — e trabalhou como editor na Apicuri (2010–2016). Também atua como curador e produtor de textos críticos para exposições de arte e escreve crônicas e resenhas para o portal luso-brasileiro Estrategizando.

Estreou na literatura em 2013 com Estranhas criaturas noturnas (Editora Apicuri) e, desde então, publicou nove livros, entre contos, poesia e romance. Acumula distinções como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas GeraisPrêmio Moacyr ScliarPrêmio da Fundação Cultural do Estado do Maranhão e do Prêmio de Literatura do Estado do Pará, além de ter sido finalista do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio LeYa Portugal com o romance agora lançado.

O autor revela que o processo de escrita também o ajudou a atravessar perdas pessoais, como a morte da mãe e um incêndio em seu apartamento.

“Ainda que o livro tenha me ajudado a superar traumas, não é o efeito terapêutico que me move como artista. O que importa é saber se a obra atinge o leitor”, pondera.

Trecho do livro (pág. 57)

“Meu pai tinha uma relação singular, uma relação física, quase sensual, com o dinheiro. Gostava de contar as cédulas e as moedas, limpá-las, arrumá-las por valor, sentir seu cheiro, avaliar o peso e o volume de pilhas dobradas ou de moedas empilhadas (...). Tinha grande facilidade para as operações matemáticas, e se sentia feliz com a concretude da riqueza, o cofre cheio, a carteira pesada.
Não era gastador inconsequente, mas também não era avaro — esse prazer talvez o fizesse crer que o tão amado bem nunca deixaria de fluir para ele.”



Adquira “As vontades do vento”, de Jozias Benedicto, pelo site da Caravana Grupo Editorial: caravanagrupoeditorial.com.br/produto/as-vontades-do-vento/

Após dois anos de pesquisa, romance revisita episódio silenciado na história brasileira e expõe violência de Estado contra retirantes

  Baseada na experiência de populações impedidas de se deslocar, narrativa constrói um retrato do confinamento, da fome e das estratégias de...