Mostrando postagens com marcador Triste. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Triste. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de junho de 2010

Triste, não mais me encontrarei com você


Pedro Coimbra

         Acelerou o carro para ultrapassar um bando de motoqueiros a sua frente. No sábado havia morrido Dennis Hopper, diretor e ator de Sem Destino, filme que marcou toda uma geração, um cara que conseguiu vencer seu envolvimento com drogas e álcool, passando por momentos difíceis.
         O grupo parecia ter saltado diretamente das telas, com as mesmas máquinas e indumentárias.
         “Loucura!” Pensou Márcio. Easy Rider acontecera a mais de três décadas atrás.
         Naquela tarde ele estava ouvindo “My sweet Lord”, do tributo ao ex-Beatle George Harrinson, quando Melissa o chamou pelo telefone. Queria saber o que iriam fazer no final de semana.
-Vou pro rancho = ele disse. E logo emendou a frase: “Sem você”.
- Por que? – ela perguntou.
- Por  que estou triste e triste, não mais me encontrarei com você.
       Em 1974, resolvera comprar uma moto. Achava que essas máquinas podiam lhe devolver a liberdade perdida.
Escolheu uma motocicleta de 500cc, Kawasaki, com a carenagem verde e foi fazer um “test drive” numa avenida.
Quando se extasiava com o vento batendo no seu rosto, a chuva caiu. Um dos desses temporais repentinos e voltou para a revenda. Naquele dia fez um propósito de nunca mais andar nesses veículos de duas rodas, mesmo que tivesse que andar a pé.
O grupo de motociclistas seguia um triciclo cheio de bandeiras e caveiras que parecia conduzir seu líder.
Um seu amigo que trabalhava na Polícia Rodoviária Federal, uma vez lhe contara que vez ou outra paravam esses dinossauros e sempre encontravam drogas. Por uma dessas taras da existência humana ele colecionava fotos de acidentes com motoqueiros. Um dia ligou o computador e logo que mostrou as duas primeiras fotos Márcio sentiu mal, com ânsia de vômito.
1969 foi o ano que tudo aconteceu: Sem Destino, Woodstock e a contracultura. No Brasil, no final de 1969, o líder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repressão em São Paulo e começava a ditadura Medíci.
Melissa me dizia que não entendia essas ondas de tristeza que tomavam conta dele. Pudera! Ela era muito jovem, cheia de vida e sua maior tristeza foi a morte de Frederico, o peixinho que eu criava em um aquário.
Num ponto ela tinha razão ao criticar meus ataques de nostalgia. A vida sempre continuava com seus altos e baixos.
Como naquele dia que Márcio e os amigos foram para a Chapada caçar veados. Não viram nem um animal, beberam muita cachaça e acabou sendo vitimado na perna por um tiro de espingarda disparada por Pezão. Doeu muito e ele acabou manco para sempre.
“Fica assim não, Márcio”,  ela dizia e o abraçava com seu frescor juvenil.
                   Uma moto desgarrou da fila dupla e ele viu que era uma Indiana, uma marca muito antiga que devia ter sido recuperada. O garupeiro olhou bem nos seus olhos e não conseguiu identificar se era um homem ou uma mulher. Fez um gesto obsceno e dispararam atrás do líder.
Seu desejo imediato foi enfiar seu carro em cima deles, passar por cima, destroçá-los.
Eles tinham toda a liberdade que ele não tinha e se organizavam em grupos de cinqüenta ou mais máquinas, escapamentos abertos, perdidos em suas divagações...
Pouco a pouco eles foram se afastando. Colocou um CD para tocar e logo a voz de Bob Dylan o fez voltar a realidade.
“Desculpe-me, Melissa, minha princesa! Gostaria muito de estar com você, mas hoje é dia de juntar toda a tralha perdida pelo caminho”, pensou.
Nada demais. Afinal seria apenas um final de semana afastados, longe dos passatempos idiotas, dos jogos de baralho, das brincadeiras de adivinhações e das dificuldades para resolver os problemas culinários.
Na segunda-feira ela faria uma cara desolada e ele lhe diria mais uma vez: Triste, não mais me encontrarei com você...

CEDECA RJ lança cartilha de educação política para adolescentes com participação do cientista político Jairo Nicolau

  Publicação “Quem cuida… da minha cidade? do meu estado? do meu país?” explica, em linguagem acessível, o funcionamento dos cargos político...