sexta-feira, 18 de junho de 2010

A morte de José Saramago






A morte de José Saramago
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“Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será. (...)
Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.”

Morreu hoje, aos 87 anos, José Saramago, em Lanzarote, Ilhas Canárias, onde vivia com sua segunda mulher, Pilar Del Rio.
O homem que nunca foi à universidade, porque a família era pobre e não havia meios para isso.

O homem que, para sobreviver, fez um curso técnico e tornou-se serralheiro mecânico. No entanto, como tinha paixão pelas letras, passava suas noites na Biblioteca Municipal Central de Lisboa.

O homem chamado coragem nasceu em 1922 em Azinhaga, no Ribatejo, Portugal de uma família de pais e avós pobres.

O homem que foi funcionário público em Portugal, por décadas. Aos 30 anos começou a fazer traduções, para aumentar sua renda de operário. Auto didata, traduziu Baudelaire, Hegel e Tolstoi, entre outros clássicos.

O homem que publicou seu primeiro romance, Terras do Pecado, em 1947, mas só foi reconhecido como um verdadeiro escritor a partir da década de 1980, quando lançou o romance Levantado do Chão.

Depois disso, seus sucessos literários se sucederam com Memorial do convento (1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1984), A jangada de pedra, (1986) História do cerco de Lisboa (1989) O Evangelho segundo Jesus Cristo, (1991) e Ensaio sobre a cegueira (1995) com o qual ganhou o Prémio Nobel da literatura em 1998.
Único ganhador de um Prêmio Nobel em língua portuguesa, José Saramago ajudou, com isso, a estimular as vendas de livros e a aumentar o respeito por quem escreve em português.

O homem que, com esse sucesso, fez com que vários outros autores nacionais e da comunidade de língua portuguêsa fossem descobertos e também lidos, o que estimulou os mercados de livros na nossa língua.

O homem que nunca escondeu suas ideias, brigou por elas, deixou muito claras suas posições, sem medo de críticas.
“Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles,  infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão, aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala”.

Autor versátil, ele deixou 20 romances, 3 livros de contos, 5 peças de teatro, 4 livros de crônicas, 3 livros de poesias e um de viagem. Os números, frios, nunca vão explicar a emoção da qual era carregada sua literatura, que fez chorar e rir, que espantou e acalmou, que fez pensar, enfim. “Escrevo para desassogar os meus leitores” disse Saramago em 2009.

"Sou um leitor de Saramago desde a minha adolescência. Conheço muito bem a obra dele e foi o escritor que mais me tocou até hoje", revelou. João Tordo, ganhador do Prêmio José Saramago 2009 (com o romance “As Três Vidas” Portugal). Para Tordo, Saramago foi “Um escritor que revolucionou a literatura portuguesa: há um antes e um depois de Saramago. Ele inventou um modo de escrever."

O homem que se tornou, antes e por esforço próprio, jornalista, a partir do final de década de 1960. E que trabalhou intensamente na imprensa, no Diário de Notícias, Diário de Lisboa, em A Capital e no Jornal do Fundão, todos portugueses.

Em 1975 foi, por alguns meses, diretor-adjunto do "Diário de Notícias". Essa função foi o ponto alto do seu percurso jornalístico e seria fundamental para o seu regresso à literatura e ao romance.. Demitido, decidiu que transformaria a sua vida: seria um escritor em tempo integral.

Ele só seria reconhecido como tal três décadas depois de “Terras do Pecado”. Por essa época (1977) surgiu a primeira obra do Saramago exclusivamente escritor: Manual de Pintura e Caligrafia

O homem que falava da morte como fim único, pois era ateu. Mas falava da morte sem temor.
“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais”.

O homem que escreveu em seu blog, ainda na semana passada: “Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro”.
"Escritor de projecção mundial, justamente galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago será sempre uma figura de referência da nossa cultura. Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal, presto homenagem à memória de José Saramago, cuja vasta obra literária deve ser lida e conhecida pelas gerações futuras. À Família do escritor, endereço as minhas mais sentidas condolências", lê-se numa nota publicada no site da Presidência da República de Portugual, Cavaco Silva.

Morreu José Saramago. Foi ele mesmo quem disse: “Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras.”
Obras Publicadas

Poesias
Os poemas possíveis, 1966
Provavelmente alegria, 1970
O ano de 1993, 1975
Crônicas
Deste mundo e do outro, 1971
A bagagem do viajante, 1973
As opiniões que o DL teve, 1974
Os apontamentos, 1976
Viagens
Viagem a Portugal, 1981

Teatro
A noite, 1979
Que farei com este livro?, 1980
A segunda vida de Francisco de Assis, 1987
In Nomine Dei, 1993
Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, 2005

Contos
Objecto quase, 1978
Poética dos cinco sentidos - O ouvido, 1979
O conto da ilha desconhecida, 1997

Romance
Terra do pecado, 1947
Manual de pintura e caligrafia, 1977
Levantado do chão, 1980
Memorial do convento, 1982
O ano da morte de Ricardo Reis, 1984
A jangada de pedra, 1986
História do cerco de Lisboa, 1989
O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991
Ensaio sobre a cegueira, 1995
A bagagem do viajante, 1996
Cadernos de Lanzarote, 1997
Todos os nomes, 1997
A caverna, 2001
O homem duplicado, 2002
Ensaio sobre a lucidez, 2004
As intermitências da morte, 2005
As pequenas memórias, 2006
A Viagem do Elefante, 2008
O Caderno, 2009
Caim, 2009

Fonte: CBL : www.cbl.org.br 

Tributo a Saramago Nobel Lusonauta




S a r a m a g o
(18.06.10)


“O mundo existe para terminar num livro”
Mallarmé

Morreu Saramago
Em seu mundo nunca dantes navegado
No entorno de lágrimas de Portugal
E muito além do chão letral dos lusonautas
Numa intermitência telúrica
Morreu Saramago
O criador de um verbo alumbrado
Sua literatura esplende, arrebata
Num mundo globalizado – e insano
Muito além de seu tempo
Morreu Saramago
Entre seu palavrear de luz e sangue
Densos Tejos que ainda rebrilham
Em lágrimas que verteram seu espírito
Procissão de excluídos
Morreu Saramago
Que nos viçou em língua mátria
A sociedade sórdida: e o que somos
Ovelhas perdidas de uma manada
Contra o qual lutava...
Morreu Saramago
O ser humano historial, o homem bandeira
Que na mão esquerda ainda tem uma roseira
Que dá flores rubras a vida inteira
Levantado do chão, nos ares

AINDA VIVE SARAMAGO!


-0-


Silas Correa Leite, Santa Itararé das Letras, São Paulo, Brasil
E-mail:
poesilas@terra.com.br - Site: www.portas-lapsos.zip.net

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A mulher de bota

Pedro Coimbra

ppadua@navinet.com.br

Seria um dia comum de outono se não fosse pelo frio que teimava por entrar no meio dos agasalhos que vestia e me enregelar.

Esperava cumprir aquele compromisso profissional e social e me enfiar debaixo de pelo menos três cobertores, numa cama aconchegante.

Era uma reunião em que o número de homem predominavam sobre as mulheres. Eles falantes e desinibidos e elas, estranhamente caladas, o que não era de seu feitio.

Encostei-me num canto e fiquei a observá-las, todas elegantemente vestidas.

Num instante percebi que quase todas elas calçavam botas.

Quando o homem surgiu lá na África distante não usava vestuário nenhum. Literalmente todos andavam nus. E talvez o que mais aborrecesse esses nossos irmãozinhos de um passado distante fosse caminhar num chão pedregoso, cheio de armadilhas.

Envergonhados, depois de conhecer o Mal, que os tirou de seu caráter angelical de seres especiais no Paraíso, sentiram vergonha de suas partes pubentas e trataram de se cobrir com toscas roupagens.

Daí para a primeira sandália a lhes proteger os pés foi um pulo, dizem os historiadores.

Andar descalço ou não tornou-se com toda certeza um sinal de civilização.

Um empreendedor se transferiu para a Corte do Marfim, com disposição e maquinário para fabricar meias. Lá chegando percebeu que iria a falência, pois ninguém comprava seus produtos. Simplesmente não havia demanda. Encomendou novas máquinas e começou a produzir sandálias de borracha que se transformaram num sucesso...

A bota é um tipo de calçado que todos nós sabemos ter o cano mais alto que o sapato comum. A altura do cano varia com a destinação ou em razão da moda.

São de inúmeros tipos: combate, militar, de motociclista, vaqueiro, feminina e outros.

São feitas com couro bovino, sola de borracha ou couro e forros em lã, pele ou sintéticos.

Surgiram da necessidade de proteger uma parte da perna das pessoas, acabando por se tornar um artigo de moda, do gosto das mulheres.

Localizo minha amiga de muitos anos, G., com os cabelos alourados, um casaco muito elegante, preto e botas da mesma cor.

Ao vê-la e perceber suas atitudes percebi que essa história de usar botas mais do que moda era um sensual fetiche.

Fetiche é uma palavra oriunda do francês e significa feitiço. É uma espécie de obsessão por alguma coisa, situação, pessoa ou parte da pessoa. Uma atração incontrolável que origina um prazer intenso, nem sempre ligado à prática sexual.

Mas ligado também profundamente a roupas de couro pretas, chicotinho e outras práticas sadomasoquistas...

A nossa conversa flui de forma muito agradável e me ponho a pensar se G. tem conhecimento de toda a simbologia contida naquele complemento do seu vestuário.

Concluo que as mulheres têm uma percepção muito maior do que a homens para o que nos atrai.

Mesmo que seja, como para G., puro charme...

Blog da Revista Virtual Partes: HUMANO CANTO

Blog da Revista Virtual Partes: HUMANO CANTO

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Estatuto de Poeta em Português e Russo, Silas Correa Leite, Tradução Oleg Almeida






Estatuto de Poeta em Português e Russo

ESTATUTO DE POETA

Primeiro Rascunho Para um Esboço de Projeto Amplo, Total e Irrestrito

Silas Corrêa Leite
Artigo Um

Todo Poeta tem direito de ser feliz para sempre, mesmo além do para sempre ou quando eventualmente o “para sempre” tenha algum fim.
Artigo Dois
Todo Poeta poderá dividir sua loucura, paixão e sensibilidade com mil amores, pois a todos amará com o mesmo prelúdio nos olhos, algumas asas nas algibeiras e muitas cítaras encantadas na alma, ainda assim, sem lenço e sem documento.
Parágrafo Único
Nenhum Poeta poderá ser traído, a não ser para que a ex-Musa seja infeliz para todo o resto dos dias que lhe caibam na tábua de carne desse Planeta Água.
Artigo Três
Nenhum Poeta padecerá de fome, de tristeza ou de solidão, até porque a tristeza é a identidade do Poeta, a solidão a sua Pátria, sendo que, a fome pode muito bem ser substituída por rifle ou cianureto. E depois, um poeta não precisa de solidão para ser sozinho. É sozinho de si mesmo, pela própria natureza, com seus encantários, mundo-sombra e baladas de incêndio.
Artigo Quatro
A Mãe do Poeta será o magno santuário terreal de seus dias de lutas e sonhos contra moinhos e erranças de gracezas e iluminuras.
Filho de Poeta será como caule ao vento, cálice de liturgia, enchente em rio: deverá adaptar-se ao Pai chamado de louco por falta de lucidez de comuns mortais ou velado elogio em inveja espúria.
Artigo Quinto
Nenhum Poeta será maior que seu país, mas nenhuma fronteira ou divisa haverá para o Poeta, pois sua bandeira será a justiça social, pão, vinho, maná, leite e mel, além de pétalas e salmos aos que passaram em brancas nuvens pela vida. E depois, uns são, uns não, uns vão, uns hão, uns grão, uns drão – e ainda existem outros.
Artigo Sexto
A todo Poeta será dado pão, cerveja, amante e paixão impossível, o que naturalmente o sustentará mental e fisiológicamente em tempos tenebrosos ou de vacas magras, de muito ouro e pouco pão.
Artigo Sétimo
Nenhum Poeta será preso, pois sempre existirá, se defenderá e escreverá em legítima defesa da honra da Legião Estrangeira do Abandono, à qual sabe pertencer, com seu butim de acontecências, ou seu não-lugar de, criando, ser, estar, permanecer, feito uma letargia, um onirismo.
Artigo Oitavo
A infinital solidão do espaço sempre atrairá os Poetas.

Artigo Nono

Caso o Poeta viaje fora do combinado, tome licor de ausência ou vá morar no sol, nunca será pranteado o suficiente, nem lhe colocarão tulipas de néon, dálias aurorais, estrelícias de leite ou dente-de-leão sob o corpo que combateu o bom combate. Será servido às carpideiras, amigos, parentes, anjonautas e guardiões, vinho de boa safra por atacado, mais bolinhos de arroz, pão de minuto e cuque de fubá salgado.
Artigo Décimo

Poeta não precisará mais do que o radar de seus olhos, as suas mãos de artesão sensorial no traquejo do cinzel interior, criativo, sua aura abençoada e seu halo com tintas de luz para despojar polimentos íntimos em verso e prosa, como pertencimentos, questionários e renúncias.

Artigo Décimo-Primeiro

Poeta poderá andar vestido como quiser, lutar contra as misérias e mentiras do cotidiano (riquezas impunes, lucros injustos), sempre buscando pela paz social, ou ainda mamando na utopia de uma justiça plural-comunitária. Quem gosta de revolução de boteco é janota boçal metido a erudição alcoólica e pseudo-intelectual seboso e burguês. Poeta gosta mesmo de humanismo de resultados. De pegar no breu. A luta continua!
Artigo Décimo-Segundo

Poeta pode ser Professor, Torneiro-Mecânico, Operário, Jardineiro, Fabricante de Bonecas, Vigia-Noturno, Engolidor de Fogo, Entregador de Raposas, Dono de Bar ou Encantador de Freiras Indecisas. Poeta só não poderá ser passional, insensível, frio ou interesseiro. Ao poeta cabe apenas o favo de Criar. O poeta escreve torto por linhas tortas (um gauche), poesilhas (poesia rueira e descalça) e ficção-angústia. Escreve (despoja-se) para não ficar louco...para livrar do que sente. O Poeta, afinal, é um “Sentidor”

Artigo Décimo-Terceiro

Se algum Poeta for acusado levianamente de alguma eventual infração ou crime, a dúvida o livrará. E se o Poeta dizer-se inocente isso superará palavras acima de todos e sua fala será sentença e lei. A ótica do Poeta está acima de qualquer suspeita, e ele sempre é de per-si mesmo o local do crime da viagem de existir. Mas pode colaborar com as autoridades, cometendo um crime perfeito. Afinal, só os imbecis são felizes.
Parágrafo Único

Poeta não erra. Refaz percursos. Poeta não mente. Inventa o inexistente, traduz o impossível, delata o devir. Poeta não morre. Estréia no céu.

Artigo Décimo-Quarto

Aos Poetas serão abertas todas as portas, até as invisíveis aos olhos vesgos e comuns dos mortais anônimos, serão abertos todos os olhos, todas as almas, todos os caminhos, todas as chamas, todos os cântaros de lágrimas e desejos, todos os segredos dessa dimensão ou fora dela, num desespelho de matizes.


Artigo Décimo-Quinto

A primeira flor da primeira aurora de cada dia novo, será declarada de propriedade do Poeta da rua, do bairro, do país ou de qualquer próximo Poeta a confeitar como louco, como ermitão ou pioneiro, de vanguarda. Em caso de naufrágio ou incêndio, poetas e grávidas primeiro

Artigo Décimo-Sexto
Não existe Poeta moderno, clássico, quadrado, matemático como pelotão de isolamento, ou só aleijado por dentro, pois as flores e os rios não nascem nunca iguais aos outros, sósias, nem os poemas são tijolos formais. Nenhum Poeta poderá produzir só por estética, rima ou lucro fóssil. Poesia não é para ser vendida, mas para ser dada de graça. Um troco, um soneto, uma gorjeta, um haikai, um fiado pago, uns versos brancos, um salário do pecado, um mantra-banzo-blues. E todo alumbramento é uma meia viagem pra Pasárgada.

Poeta é tudo a mesma coisa, com maior ou menor grau de sofrimento e lições de sabedoria dessas sofrências, portanto, com carga maior ou menor de visão, lucidez, sensoriedade canalizada entre o emocional e o racional, de acordo com a sua bagagem, seu vivenciar, seu prisma existencialista de bon vivant. Poeta há entre os que pensam e os que pensam que pensam. Entre os que são e os que pensam que são. A todos é dado a estrada de tijolos amarelos para a empreita de uma caminhada que o madurará paulatinamente. Ou não. Todo poeta é aprendiz de si mesmo, em busca de uma pegada íntima, e escreve para oxigenar a alma. Afinal, são todos sementes, e sabem que precisam ser flores e frutos, para recriarem, para sempre, a eterna primavera.

Todo aquele que se disser Poeta, assim o será, ou assim haverá de ser

Parágrafo Um

O verdadeiro Poeta não acredita em Arte que não seja Libertação. Saravá, Manuel Bandeira!

Parágrafo Dois

Poeta bebe porque é líquido. Se fosse sólido comia.

Parágrafo Três

Poeta é como a cana. Mesmo cortado, ralado, amassado, ao ser posto na moenda dos dias, ainda assim tem que dar açúcar-poesia

Inciso Um

Poeta também bebe para tornar as pessoas mais interessantes.

Parágrafo quatro

Poeta não viaja. Poeta bebe. E todo Poeta sabe, que o fígado faz mal à bebida.


Artigo Décimo-Sétimo

Poeta terá que ser rueiro como pétala de cristal sacro, frequentador de barzinhos como anjo notívago, freguês de saunas mistas como recolhedor de essências, plantador de trigais amarelos como iluminador de cenários, cevador de canteiros entre casebres de bosquíanos, entre o arado e a estrela, um arauto pós-moderno como declamador de salmos contemporâneos entre extraterrestres.

Parágrafo Único


Poeta rico deverá ainda mais amar o próximo como se a si mesmo, ajudando os fracos e oprimidos, os Sem Terra, Sem Teto, Sem Amor, para então se restar bem-aventurado e poder escrever cânticos sobre a condição humana no livro da vida. Poeta é antena da época. E o neoholocausto do liberalismo globalizador é o câncer que ergue e destrói coisas belas.

Artigo Décimo-Oitavo

A todo Poeta andarilho e peregrino como Cristo, São Francisco ou Gandhi, será dado seu quinhão de afeto, sua porção de Lar, seu travesseiro de pétalas de luz. Quem negar candeia, azeite e abrigo ao Poeta, nunca terá paz por séculos de gerações seguintes abandonadas entre o abismo e a ponte para a Terra do Nunca. Quem abrigar um Poeta, ganhará mais um anjo-da-guarda no coração do clã que então será abençoado até os fins dos tempos.

Parágrafo único
O sábio discute sabedoria com um outro sábio. Com um humilde o sábio aprende.

Artigo Décimo-Nono

Poeta poderá andar vestido como quiser, com chapéus de nuvens, pés de estrelas binárias ou mantras de ninhos de borboletas. Nenhum Poeta será criticado por fazer-se de louco pois os loucos herdarão a terra e são enviados dos deuses. “Deus deve amar os loucos/Criou-os tão poucos...” - Um Poeta poderá também andar nu, pois assim viemos e assim nos moldamos ao barro-olaria de nosso eio-Éden chamado Planeta Água. E a estética para o poeta não significa muito, somente o conteúdo é essência infinital.

Artigo Vigésimo

Poeta gosta de luxo também, mas deve lutar por uma paz social, sabendo a real grandeza bela de ser simples como vôo de pássaro, simples como pouso em hangar fantástico, simples como beira de rio ou vão de cerca de tabuínha verde. Só há pureza no simples.

Artigo Vigésimo-Primeiro

Nenhum Poeta, em tempo algum, por qualquer motivo deverá ser convocado para qualquer batalha, luta ou guerra. Mas poderá fazer revoluções sem violência. Poderá também ser solicitado para ser arauto da paz, enfermeiro de varizes da alma ou envernizador de cicatrizes no coração, oferecendo, confidente, um ombro amigo, um abraço de ternura, um adeus escondido feito recolhedor de aprendizados ou visitador de bençãos, ou ser circunstancialmente um rascunhador clandestino de alguma ridícula carta de suicida.


Artigo Vigésimo-Segundo

Mentira para o Poeta significa cruz certa. Aliás, poeta na verdade nunca mente, só inventa verdades tecnicamente inteiras e filosoficamente sistêmicas...

Artigo Vigésimo-Terceiro

Musa-Vítima do Poeta será enfermeira, psicóloga, amante, mulher-bandeira, berço esplêndido, Santa. Terá que ser acima de todas as convenções formais, pau para toda obra. No amor e na dor, na alegria e na tristeza, até num possível pacto de morte.

Artigo Vigésimo-Quarto

Poeta não paga pensão alimentícia. Ou se está com ele ou contra ele. Filha e sobrevivente de uma relação qualquer, ficarão sob sua guarda direta e imediata. Ex-Mulheres serão para sempre águas passadas que não movem moinhos, como velas ao vento de uma Nau Catarineta qualquer, como exercícios de abstrações entre cismas, ou como aprendizados de dezelos íntimos de quem procura calma para se coçar.


Artigo Vigésimo-Quinto

Revogam-se todas as disposições em contrário
CUMPRA-SE - DIVULGUE-SE
Brasil, Cinzas, Lua Cheia – Do jazz nasce a luz!
Poeta Silas Corrêa Leite, Educador e Jornalista – Membro da UBE-União Brasileira de Escritores
E-mail: poesilas@terra.com.br – site do autor com algumas de suas obras: www.itarare.com.br/silas.htm
Blog premiado do UOL:
www.portas-lapsos.zip.net
O escritor é autor do livro O Homem Que Virou Cerveja, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia, no prelo, Giz Editorial
Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Editora Design, Contos, Finalista do Prêmio Telecom, Portugal

ESTATUTO DE POETA EM RUSSO
Tradução Oleg Almeida



ХАРТИЯ ПОЭТА

Первый Черновик Наброска Всеобщего, Всеобъемлющего и Неограниченного Проекта

Силас Корреа Лейти

Статья Первая
Каждый Поэт имеет право быть счастлив всегда и более, чем всегда, и даже если этому «всегда» однажды наступит конец.

Статья Вторая
Каждый Поэт сможет делиться своими безумием, страстью и нежностью с тысячами возлюбленных, и для всех у него найдутся одна и та же прелюдия в глазах и парочка крыльев в карманах, а в душе – множество зачарованных кифар, вот только носового платка и документов у него не будет.

Параграф Единственный
Поэту нельзя будет изменить, разве что с тем, чтобы его экс-Муза стала несчастной до конца дней, которые выпадут ей на мясной колоде нашей Планеты Вод.

Статья Третья
Поэту не доведётся страдать от голода, грусти и одиночества, хотя бы потому, что грусть – это личность Поэта, одиночество – его Родина, голод же можно запросто заменить пулей или отравой. Кроме того, Поэт не нуждается в одиночестве, чтобы быть одиноким. Он одинок сам по себе, в силу своей природы, наедине со своими причудами, миротенью и поджигательскими балладами.

Статья Четвёртая
Мать Поэта станет величайшим из земных святилищ в дни его мечты и борьбы с ветряными мельницами, скоморошьих скитаний и лубочных картинок.
Сын же Поэта станет деревцем на ветру, кубочком литургии, разливом реки: он должен будет смириться с Отцом, названным сумасшедшим вследствие тупости простых смертных или же в качестве похвалы пополам с нелегальной завистью.

Статья Пятая
Поэту не стать больше своей страны, но нет для Поэта границ и пределов, коль скоро его штандарт – социальная справедливость, хлеб, манна, вино, молоко и мёд, а также цветы и псалмы в честь тех, что по жизни прошли, словно белые облака. И потом – кому честь, кому лесть, кому яйца несть, кому в лужу сесть – а ведь есть ещё и другие.

Статья Шестая
Каждый Поэт получит краюшку хлеба и кружку пива, и любовницу, и невозможную страсть – и всё это естественно станет ему телесной и моральной опорой в тёмные времена и в эпоху тощих коров, когда мало хлеба, а золота – хоть отбавляй.

Статья Седьмая
Поэта не бросят в тюрьму, поскольку он всегда сможет выжить и защититься и постоять за честь Иностранного Легиона Неприкаянности, солдатом которого является со своими трофеями случившегося и сотворённого, своим прошлым, настоящим, извечным – как летаргия или сны наяву.

Статья Восьмая
Необъятное одиночество космоса всегда будет звать Поэтов.

Статья Девятая
Если Поэт отправится в нежданное путешествие, выпьет ликёр отсутствия или же переселится на солнце, его никогда не удастся оплакать полностью: телу отчаянного бойца не послужат постелью неоновые тюльпаны, рассветные далии, млечные стрелиции, одуванчики. Плакальщицам, друзьям, домочадцам, ангелонавтам и стражникам подадут вино доброго урожая по оптовой цене, вдоволь сдобных булочек, рисовых пирожков и кексов из подсоленной кукурузной муки.

Статья Десятая
Поэту понадобятся лишь радар его глаз, руки чувственного ремесленника, чтобы управиться с творческим, потаённым резцом, благословенная аура и ореол светотени, чтобы рассыпать интимные отблески – как в стихах, так и в прозе – прерогативы, анкеты и отречения.

Статья Одиннадцатая
Поэту дозволено одеваться, как ему заблагорассудится, и бороться с повседневными бедностью и враньём (незаконным обогащением, безнаказанностью богатства) в непрестанном поиске социального мира или же намертво присосавшись к утопии плюрализма общественной справедливости. Кому нравятся революции в кабаке – тот болванистый франт со своим алкогольным всезнайством или засаленный буржуазный псевдоинтеллигент. Поэту по вкусу гуманизм результатов. Ему по душе летать в ночном небе. И борьба продолжается!

Статья Двенадцатая
Поэт может быть Профессором, Токарем, Чернорабочим, Садовником, Кукольником, Ночным Сторожем, Огнеглотателем, Раздатчиком Лис, Кабатчиком или же Соблазнителем Сомневающихся Монашек. Поэт не может быть лишь пристрастным, бесчувственным, заинтересованным и холодным. Поэту причитается лишь сота Творчества. Поэт пишет вкривь и вкось (левша), сочиняет стихотвореньица (уличные и на босу ногу) и тоску-фантастику. Пишет (выкладывается), чтобы не обезуметь... выплеснуть то, что чувствует. Поэт, в конце-то концов, есть «Чувствователь».

Статья Тринадцатая
Если Поэта легкомысленно обвинят в каком-нибудь там преступлении или проступке, его оправдает сомнение. И если Поэт объявит себя невиновным, это будет важнее всех сказанных слов, речь же Поэта – законом и приговором. Взгляды Поэта выше каких бы то ни было подозрений, а сам по себе он – место преступления в своём жизненном путешествии. Однако он может сотрудничать с властью, совершив совершенное преступление. В конце-то концов, лишь слабоумные счастливы.

Параграф Единственный
Поэт не теряет дороги. Проходит её вновь и вновь. Поэт не лжёт. Изобретает несуществующее, выражает немыслимое, доносит на становление. Поэт не умрёт. Дебютирует на небесах.

Статья Четырнадцатая
Поэтам открыты все двери, даже невидимые косым и обычным глазам безымянных смертных, открыты все взоры, все души, все тропы, все языки пламени, все бочки слёз и желаний, все тайны этого и иных измерений в зазеркалье оттенков.

Статья Пятнадцатая
Первый цветок самой первой зари каждого нового дня будет объявлен собственностью Поэта улицы или района или страны, или любого Поэта – засахаренного, точно безумец, отшельник или первопроходец – авангардиста. В случае кораблекрушения или пожара, дорогу беременным и Поэтам!

Статья Шестнадцатая
Не существует Поэта современного, классического, квадратного, математического, словно конвой, либо увечного изнутри, поскольку цветы и реки никогда не родятся точь-в-точь похожими двойниками, поэты же – формальными кирпичами. Поэт не может творить лишь за счёт эстетики, рифмы или же ради ископаемого дохода. Поэзия не для того, чтобы ей торговать: она раздаётся даром. Сдача, сонет, чаевые, хокку, выплаченный кредит, несколько белых стихов, меланхолия-мантра-блюз. И всякое ослепление есть половина пути в Пасаргады.
Поэт всегда одинаков при большем или меньшем грузе страдания и уроков мудрости таковым порождённых, и стало быть, с большей или меньшей нагрузкой прозрения, ясновидения, сенсориальности между эмоциональным и рациональным, в зависимости от багажа пережитого и экзистенциалистской призмы бонвивана. Поэт среди тех, что мыслят, и тех, что думают, будто мыслят. Среди тех, что живут, и тех, что думают, будто живут. Всем даётся дорога из жёлтого кирпича для того, чтоб идти по ней и мало-помалу созреть. Или нет. Каждый поэт – свой собственный ученик в поисках скрытых следов и пишет, чтоб кислородом наполнить душу. В конце-то концов, все они – лишь семена, знающие, что должны стать цветами и фруктами, чтобы вновь и вновь – навсегда – воссоздать вечную весну.
Каждый, кто называет себя Поэтом, им станет или должен будет им стать.

Параграф Первый
Настоящий Поэт не верит в Искусство, которое не равняется Освобождению. Виват, Мануэл Бандейра!

Параграф Второй
Поэт пьёт, потому что жидко. Было бы твёрдо, ел бы.

Параграф Третий
Поэт – как тростинка: даже подрезанный, перетёртый, смолотый мельницей дней, всё равно производит сахар-поэзию.

Вставка Первая
Поэт также пьёт, чтобы люди стали поинтереснее.

Параграф Четвёртый
Поэт не бредит. Поэт выпивает. И каждому Поэту известно, что печень мешает выпивке.

Статья Семнадцатая
Поэту следует быть бродягой, как лепесток священного хрусталя, завсегдатаем баров, как ангел-лунатик, посетителем смешанных саун, как сборщик эссенций, сеятелем жёлтой пшеницы, как осветитель сцены, засевателем клумб меж домишками персонажей Босха, между сохой и звёздами, постсовременным герольдом, как декламатор новейших псалмов среди инопланетян.

Параграф Единственный
Богатый Поэт должен любить ближнего, как себя самого, и даже больше, помогая слабым и угнетённым, Безземельным, Бездомным и Нелюбимым, чтобы остаться навеки блаженным и вписать строфы о человеческом бытии в книгу жизни. Поэт есть антенна эпохи. Новый же Холокост глобализирующего либерализма есть рак, разрушающий красоту.

Статья Восемнадцатая
Каждому Поэту-бродяге и пилигриму, словно Христос, Святой Франциск или Ганди, достанется его частичка ласки, порция Очага и подушка, набитая лепестками света. Тот, кто откажет Поэту в свече, оливковом масле и крове, никогда не найдёт покоя – во веки веков поколений, затерянных между пропастью и мостом в Страну Никогда. Тот же, кто приютит Поэта, заслужит ещё одного ангела-хранителя в сердце клана, что будет благословен до конца времён.

Параграф Единственный
Мудрый спорит о мудрости с другим мудрым. У нищего духом мудрый учится.

Статья Девятнадцатая
Поэт вправе носить ту одежду, которая ему нравится: шляпы из облаков, туфли из двойных звёзд или мантры из гнёздышек мотылька. Поэт не подвергнется критике за то, что притворяется сумасшедшим, поскольку безумные унаследуют землю, будучи посланниками богов. «Бог, должно быть, любит дураков/Так их мало испокон веков...» Поэту также дозволено ходить голым, поскольку так мы сошли с гончарного круга нашего Рая Земного, именуемого Планетой Вод. Эстетика же не значит многого для Поэта – лишь в содержании беспредельная сущность.

Статья Двадцатая
Поэту тоже нравится роскошь, однако ему надлежит бороться за социальный покой, зная о том, что прекрасное и подлинное величие просто, как полёт птицы, как приземление в фантастическом ангаре, как берег реки или дырка в ограде из зелёных досочек. Лишь в простоте – чистота.

Статья Двадцать Первая
Ни одного Поэта, никогда в жизни, ни по какой причине не пошлют в бой, сражение или вообще на войну. Однако он может вершить революции без насилия. Его также могут назначить глашатаем мира, целителем варикозов души, полировщиком сердечных рубцов, наперсником, предлагающим дружеское плечо, ласковое объятие, прощание втихомолку, словно сборщик трудовых навыков или инспектор благословений; при случае, он может исподтишка набросать какую-нибудь смехотворную записку самоубийцы.

Статья Двадцать Вторая
Ложь для Поэта тождественна верной смерти. Впрочем, Поэт никогда не лжёт, лишь придумывает технически полные и философски системные истины...

Статья Двадцать Третья
Муза-Жертва Поэта будет сестрой милосердия, психологом и любовницей, женщиной-знаменем и сияющей колыбелью, Святой. И ей придётся, превыше всех формальных условностей, быть к любой бочке затычкой. В любви и боли, грусти и радости, даже в возможном пакте о смерти.

Статья Двадцать Четвёртая
Поэт на платит алиментов. Кто не с ним, тот против него. Дочь и выжившая после любых отношений находятся под его прямою и непосредственною опекой. Его бывшие жёны останутся навсегда тем, «что было, да сплыло», словно тот самый бумажный кораблик, как упражнения в абстракции между схизмами или уроки глубоко личных штучек для тех, кто ищет приключений на свою голову.

Статья Двадцать Пятая
Все положения, противоречащие вышеизложенному, считаются недействительными.


ПРИНЯТЬ К ИСПОЛНЕНИЮ И РАСПРОСТРАНЕНИЮ

Бразилия, Пепел, Полнолуние – Из джаза родится свет!

Поэт Силас Корреа Лейти, воспитатель и журналист – Член БСП (Бразильского Союза Писателей).

Tradução do português por Oleg Almeida
E-mail:
oleg_almeida@hotmail.com
Site: http://www.olegalmeida.com/

Exposição: O negro no futebol brasileiro

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Memórias do Rádio Esportivo


Comecei a acompanhar narrações esportivas mais atentamente por volta dos 11 anos de idade, no início da década de 1970.
O tipo de narração era mais ou menos padrão: um speaker de voz poderosa e rápida, estilo turfe; um comentarista de voz lenta e doutoral; e um ou dois repórteres de campo, além do plantão esportivo, que informava resultados de outros jogos.
Em Santos, eu costumava escutar a Rádio Atlântica, cujo narrador era Walter Dias, com comentários de Jorge Shammas e reportagens de João Carlos, o corisco dos repórteres. É verdade que várias vezes a torcida já estava gritando gol e o narrador ainda estava no meio de campo. Lembrando disso, me veio à mente o impagável esquete do narrador de futebol gago, imortalizado por Zé Vasconcellos...

Quando o Santos FC jogava clássicos, no entanto, eu preferia ouvir a Rádio Nacional de São Paulo, que tinha Pedro Luiz, Mário Moraes, Juarez Suares e Roberto Carmona.
Aí, um dia, eu passeava pelo dial do rádio de pilha quando descobri a Jovem Pan.

O estilo narrativo era irresistível, a começar por Osmar Santos, que reinventou a transmissão esportiva, trazendo a ?firula? do campo para a voz. Não foi à toa que passou a ser chamando de Pai da Matéria.
Os outros narradores da Pan eram apenas José Silvério e Edemar Anusek! Os comentaristas também eram supimpas: Orlando Duarte e Cláudio Carsughi, com seu sotaque italiano indefectível, ainda mais preciso quando acompanhava o Velho Barão, Wilson Fittipaldi, nas corridas de Fórmula 1, nos tempos de Emerson, Wilsinho e José Carlos Moco Pace. No campo, desfilavam Fausto Silva (o Faustão) e Wanderley Nogueira; equipe que teve, mais tarde, o aporte de um jovem cabeção de Muzambinho: um tal Milton Neves... Mas, o que mais me surpreendeu foi o que veio depois do futebol e antes do Terceiro Tempo, que na época era um noticiário geral, de fim de domingo da emissora. O nome desse programa resumia com absoluta perfeição o que ele era: Show de Rádio. Seus protagonistas: Estevam Sangirardi, Nelson Tatá Alexandre, Carlos Roberto Escova, Odayr Batista e, algum tempo depois, Serginho Leite. Eles personificavam personagens hilários, que representavam, entre outros, cada time grande de São Paulo: o Palmeiras tinha a Nona, o Fumagalli e o cachorro Vardema Fiúme; o Corinthians tinha o Zoca Zifio, o Pai Jaú e a Nega; o São Paulo tinha o Lorde Didu Morumbi e seu mordomo corintiano, sistematicamente assim chamado: - Archibald! Archibáaáaáaáald!; e o Santos tinha dois portuários: o Zé das Docas e o Lança-Chamas, este invariavelmente bebaço e, entre um cochilo e outro, perguntando: - O Santos joga hoje?

Os domingos e quartas-feiras terminavam mais felizes, e eu, ainda menino, tinha a ilusão da eternidade das coisas boas... Até que a Rádio Globo de São Paulo, sucessora da Nacional, resolveu contratar Osmar Santos e, de quebra, levou Faustão, Tatá e Escova, provocando o que foi uma das maiores disputas entre emissoras da época, com direito a editoriais e acusações de assédio.
Osmar Santos, que vivia a dizer para os jogadores mascarados: Desce daí! Desce daí, que você não ta com essa bola toda!, virou o Pai do merchandising, mandando tanto Oi, fulano! Oi, sicrano!; que a torcida já estava gritando gol, quando ele se tocava que tinha um jogo em andamento. Na nova casa foi criado o Largo da Matriz, programa nos moldes do Show de Rádio e, logo em seguida, Faustão, Tatá e Escova começaram a apresentar a primeira versão do caótico Perdidos na Noite, na TV Gazeta, que depois foi para a Band e, mais adiante, o então gordinho (Ô loco, meu!) foi sozinho para perpetrar o Domingão do Faustão, na Globo.

As transmissões esportivas radiofônicas voltaram a ficar resumidas aos jogos, plantões esportivos e programas muito parecidos entre si, cujo diferencial único estava num narrador ou comentarista mais espirituoso.
Ainda bem que existe o Na Geral, da Rádio Bandeirantes, que conta com um gênio Beto Hora. É impressionante como ele consegue interpretar três personagens brigando entre si, ao mesmo tempo! Mudar de um tipo para outro, entre dezenas, sem perder o rumo! E ainda dar opiniões sérias por esses alteregos.

Esse é um dos muitos fascínios do rádio, talvez o maior deles, só comparável à leitura: mexer com nossa imaginação!

Esse é um dos muitos fascínios do rádio, talvez o maior deles, só comparável à leitura: mexer com nossa imaginação!

Por essas e por outras é que, em suas múltiplas e dinâmicas facetas, o rádio vive em constante processo de reinvenção de si próprio e, quando bem utilizado: informa, entretém, educa e também sabe ouvir.

Embrapa participa de debates, mostra tecnologias e lança publicações na Agrotins

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