Há
alguns dias, sentado no banco de um shopping, esperando por minha mulher,
percebi um homem, cuja idade estaria em torno dos 80 anos. Enquanto ele andava
mexia em uma pasta com um grande número de documentos.
O que me chamou atenção neste cidadão foi o fato de
que ele estava assobiando.
Imediatamente recorri à minha memória para verificar o
quanto o assobio fez parte de hábitos no passado. Havia até um músico que se
destacava como assobiador: O Garoto Assobiador.
A partir deste momento me propus a observar quantas
pessoas eu encontraria assobiando, e, como já esperava reencontrei por duas ou
três vezes o meu personagem (ele não sabia disto), que permanecia assobiando e
era o único naquele cenário.
Confesso que, de vez em quando me pego assobiando, é
um hábito antigo, quando estou sozinho, andando na rua,
trabalhando.
Todo este intróito
tem como finalidade questionar: O assobio é uma prática em desuso? É coisa de
velho?
AS NOVAS GERAÇÕES E O
ASSOBIO
Quando se abordam as novas
tecnologias, identificam-se dois grandes grupos: Os nativos digitais e os
imigrantes digitais.
Os nativos já
vem com toda a predisposição do berço (até parece que geneticamente já vem
inoculados), os imigrantes vem chegando e se aproximando das disponibilidades
tecnológicas.
O acesso à
tecnologia transita entre a necessidade de atualização e a exigência do
cenário.
Há cerca de 15 anos
atrás, ministrando a disciplina Gestão de Recursos Humanos na UFRJ, fui
consultado por dois alunos, que pediam permissão para trocar com seus colegas de
turma os seus e mails. Disse a eles que se sentissem livres, mas imaginava que
haveria poucas trocas (se não me falha a memória, na turma de 35 alunos não
havia mais do que cinco “portadores” da novidade).
Hoje não só o email, mas toda a gama de opções que a
tecnologia da informação gerou se coloca à frente dos profissionais, para sua
qualificação e inserção no mundo contemporâneo.
Não dispor destes recursos (ou seriam instrumentos)
torna o profissional desconectado de uma realidade que compromete seu desempenho
(até no terreno pessoal).
Na
hierarquia da informação, o dado só faz sentido se for decodificado. A partir de
sua decodificação o dado se transforma em informação, que selecionada, passa a
significar conhecimento. Este, quando utilizado em prol dos resultados a
alcançar, consolida o saber.
Esta
é a linha da tecnologia. Na realidade atual é preciso saber assobiar, tirar o
som correto e não simplesmente emitir um sopro silencioso. É fato concreto que
se faz necessário conhecer a tecnologia e adotá-la como um instrumento (agora
sim) do dia a dia (pessoal e profissional).
O conjunto de opções que se mostra ao profissional
hoje inclui não só a tecnologia representada pelo chamado capital estrutural
(máquinas, equipamentos, softwares e outros que tais), mas também, e
principalmente, a teia representada pelas redes sociais (que a cada dia trazem
mais novidades, obsoletando outras atropeladas pelas
novidades).
É diante deste arsenal
de opções que se torna importante analisar a forma como as organizações se
propõem a gerenciar esta mudança.
AS
EMPRESAS E A POSSIBILIDADE DE ASSOBIAR
As possibilidades que são reais hoje em relação às
redes sociais: ning, orkut, via6, facebook, twiter, formspring, youtube,
forumyahoo, podcast, tonomundo, blog, reddolac, cada uma delas tem suas
características, seus objetivos, suas peculiaridades.
As formas como se apresentam estas opções dão ao
profissional uma gama de possibilidades de interação e integração com seu mundo
pessoal e profissional.
Constata-se que as redes
proporcionam:
1 - A busca de
consensos e a convivência no cenário das diversidades, coordenando
autonomias;
2 - A conectividade,
que reforça o relacionamento sem que a autonomia venha a ser
comprometida;
3 - Gestão
compartilhada da rede e de suas atividades, por meio da criação de formas
espontâneas de divisão de trabalho e responsabilidades.
[1]
A adoção das redes
como instrumento de ação dos gestores, líderes ou profissionais, os quais, por
sua função exercem uma liderança não formal, mas capaz de influenciar
comportamentos e atitudes, demonstra uma evolução na maneira como transmitem seu
conhecimento.
A utilização destes
instrumentos, portanto é agilizadora do conhecimento, o que gera, em relação aos
gestores, líderes, a necessidade do permanente aprimoramento no uso e
manipulação destes recursos da contemporaneidade.
Determinadas organizações, em nome da segurança e da
disciplina optam por bloquear, de forma radical o acesso de seus colaboradores
às redes sociais, na medida em que afirmam ser oneroso ou perigoso controlar
tais acessos.
Há inúmeras
justificativas apresentadas, para validar este tipo de decisão. O que fica
evidente é que, ao divulgar tais medidas a empresa precisa justificar o que fez.
Se fosse um procedimento objetivo, cuja submissão à falta de lógica não ficasse
tão evidente, não haveria necessidade da exposição. Os fatos falariam por
si.
CONCLUSÃO
A adoção dos instrumentos da contemporaneidade sejam
eles telefones celulares, smartphones, terminais individuais de acesso
tecnológico (em todas as suas configurações) se transforma numa ação cotidiana,
tão simples como ... assobiar.
Conhecer as opções, identificar as disponibilidades,
verificar o que pode agregar valor ao seu trabalho e à sua vida pessoal se
transforma numa obrigação espontânea (comprometimento).
A tentativa de sobrevivência no cenário de
competitividade sem a adoção dos instrumentos pode ser marcada pela utopia, pois
não atende aos requisitos mínimos de sobrevivência nesta “selva
tecnológica”.
Os cuidados a serem
tomados com a entrada neste novo cenário incluem:
1 - Falta de compromisso com o envolvimento da
participação individual e coletiva;
2 - Excesso de individualismo e de espírito de
competição entre pessoas e instituições;
3 - Fragmentação e dissociação dos diversos
saberes e áreas de conhecimento;
4
- Confrontos de poder e conflitos entre pessoas e instituições dentro da rede,
que não conseguem superar suas diferenças de opinião.
[2]
Assobiar é um ato
solitário. Atuar em redes pressupõe interação e integração com a comunidade
produtiva. Sociabilidade e Solidariedade
[3] são ferramentas que Garteh
e Jones trouxeram e que demonstram a necessidade fundamental da sociedade
contemporânea.
A sociabilidade
pressupõe a comunicação para manutenção das relações interpessoais produtivas e
solidariedade a capacidade de trabalhar em equipe.
John Kotter ao estabelecer as coalizões poderosas, e
ele as indicou em uma era anterior ao advento das redes sociais, deixou claro
que:
O ambiente corporativo
moderno exige mais mudanças em grande escala através de novas estratégias,
reengenharia, reestruturação, fusões, aquisições, downsizing, desenvolvimento de
novos produtos ou mercados, as decisões tomadas dentro da empresa fundamentam-se
em questões maiores, mais complexas e com maior teor emocional, ocorrem com mais
rapidez, ocorrem em um ambiente de mais incertezas e exigem mais sacrifícios por
parte dos que as implementam, e um novo processo decisório é necessário porque
ninguém sozinho possui as informações apropriadas para tomar todas as decisões
importantes nem o tempo e a credibilidade necessários para convencer um grande
número de pessoas a implementarem essas decisões. Esse novo processo deve ser
conduzido por uma coalizão poderosa que possa agir como uma equipe. ( p.
56)[4]
Os nossos assobiadores poderão continuar praticando
sem problemas, mas provavelmente deverão procurar fazer com que seu assobio
interaja com outras manifestações de comunicação.
Como atividade de lazer
individual não há problemas, mas o cenário contemporâneo, altamente competitivo,
exige uma efetiva de troca de informações e de conhecimento.