terça-feira, 3 de agosto de 2010

Revés de um parto

“Oh, pedaço de mim! Oh, metade arrancada de mim,...”, diz uma letra da música de Chico Buarque, talvez a que mais me afeta emocionalmente.
Seu tema é a saudade...
Saudade que o poeta encontra várias formas de descrever, todas metaforicamente perfeitas, todas dolorosamente profundas. Saudade de coisas perdidas ou que se deixou de buscar ou acreditar. Saudade do que nos foi tirado inesperadamente, ou que, por mais que nos pensássemos resignados, nada é capaz de consolar.
Mas amores perdidos o tempo pode curar! E, hoje, já não são tantos os amores sinceros, que preconceitos e tolas tradições ainda teimem em separar.
É quando se encontra um desses amores que a gente entende o real sentido da vida e passa a vivê-la com uma intensidade que exterioriza luminosidade, que gera semente, que às vezes frutifica em mais vida e luz: é quando uma mãe dá à luz, e um pai acalenta ambos.
Nesse momento, deixamos de ser apenas andarilhos, na vida, para sermos guias e, até, caminho para nossos frutos.
No ciclo da vida, que é qual uma infindável corrida de revezamento, pais entregam vida aos filhos, e estes aos seus descendentes, num círculo virtuoso, que ninguém jamais sonharia em ver interrompido.
Nascemos, crescemos e tentamos aprender um pouco do mundo, da alma e de seus mistérios, antes que nosso tempo se esvaia e sejamos apenas lembrança, quem sabe saudade.
Quando isso é natural, fica mais fácil de entender uma perda. Uma longa vida que se encerra toca nossa alma, mas a ciência de que outras vidas dependem da nossa nos motiva a buscar forças para recobrar o alento e prosseguir.
Daí, ser pai foi algo que me tornou um ser humano melhor, apesar de todas as minhas limitações e defeitos renitentes. E a simples sensação de deixar essa condição me aflige de forma visceral. Creio que ninguém jamais estará preparado para isso, e que será precisa força sobre-humana para superar tal perda.
Por isso, toda vez que vejo quaisquer pais, famosos ou não, amigos ou não, chorarem seus filhos, isso me afeta e sempre me faz lembrar a música de Chico, que em sua mais aguda e definitiva comparação, resume que: “... a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.
Talvez não haja dor maior!
Mas, a essa lembrança sempre vem juntar-se outra, a das palavras cantadas de Renato Russo, quando afirma: “É preciso amar as pessoas, como se não houvesse amanhã. Porque se você parar para pensar, na verdade não há!”.
Quem sabe assim, a saudade talvez seja mais amena, menos dorida, e a vida possa prosseguir, com campos ainda a semear.

sábado, 31 de julho de 2010

Livro Artesã de Ilusórios de Leticia Palmeira






Pequena Resenha Crítica


Livro “Artesã de Ilusórios” - Um Tremendo Bordado Literário de Letícia Palmeira


A compreensão não é um saber abstrato.

É um saber em ação.

Paulo de Camargo



-Mas, afinal de contas, o que é mesmo que Letícia Palmeira escreve? Como classificar sua primeira obra, a estréia em alto estilo, de salto alto? Conto, crônica, ficção, prosa em verso, prosa poética, derramas subjetivos, criações letrais, pirações, qual a classificação narrativa do exuberante livro “Artesã de Ilusórios”, Editora Universitária, UFPB, 2009? Essa é a questão.

Você começa a ler e, baba baby, fica encantado; acha que está entrando num conto, depois periga ver é ensaio, quando não começa meio croniqueta e vira conto, ou vice versa, para não dizer que não falou de flores, ela entra e sai toda prosa de narrativas mirabolantes que seduzem, cativam, tornam o livro um mosaico de tudo o que ela purga, fermenta, depura; olhar de artista descrevendo a vida, com paradoxos, entraves, janelas abertas de sua alma em jorro letral. Já pensou? Artesã de Ilusórios, é, talvez, mas só talvez, uma heroína insatisfeita buscando-se a si mesma, auditando valores existenciais, momentos, transgressões, tentando a autenticidade num mundo perdido, degradado...

-A mulher e flor-fêmea no exercício exuberante de toda a sua existencialização enquanto alma pensante, transbordando, dando corajoso testemunho, quando retrata, recolhe, registra e diz a que veio. Talvez para pensar a vida em que habita, levita, constrói e resgata peculiaridades em verso e prosa. É a mulher que não se basta, não se contém, não se enquadra. Somos continuações. Letícia Palmeira é a liga. Escrevendo ela se dá inteira, questionadora, a consciência-passageira no viço da vida, buscando a felicidade de participar, enxergar, se inserir inteira na paleta sensível de seu estar em si. A artesã que escreve é isso.

-Artesã de ilusórios tem guardados incontidos, com suas vertentes, feito um rosário de parágrafos, de palavras bem torneadas. O texto sagrando a lida da vida. Romântica e crítica. Com seus conceitos e incompreensões que mapeia, entre afetos e circunstancias de viver e ser. “O mundo de janelas abertas. São palavras em terno e gravata, grávidas, idosos, infantis, famintas e libertas. Palavras são a certeza e a visão concreta das dúvidas”. (Pg. 21, Afeto Literário). Essa é a prosa viçosa dela, formada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba.

Fala de bichos, gatos, elefantes, dragões, e também do bicho-homem, o bicho-ser, no olival bem ilógico da vida. Quer o arsenal dos verbos. A vida é crucial? Qual é a imagem de nós mesmos no contexto de uma sociedade adultizada e machista? Não, não podemos fugir do lugar e estar que somos. Ou podemos, no escreviver, os destemperos alucinados? No tear de Letícia Palmeira, de anjos a borboletas, cercando o circo da vida. Compondo ou recompondo. tudo. Flores e árias. Clarões. E ela mesmo também ri-se de si, do que agrega, do que envolve com sua criação “Tabuada decorada para dias de prova – Pg. 47, Flor de Decassílabo.)

-Coletivo de pluralidades. Janelas. A madura escritora Letícia Palmeira pinta o quadro do que registra. “Vestígios de mim em outra face, num disfarce de casa antiga querendo mudar de lugar. Pg. 63, Janelas da Voz. A Mãe de Pedro arde em si, evoca almas, momentos, cicatrizes, faz um espólio de tudo. Como Clarice Lispector, poda-se para permanecer inteira e sempre na florada. O submarino amarelo é mais embaixo. A vida tem seus subterrâneos, de anjos a demônios. O amor também pode ser uma droga? Ela é cheia de questões, feminina e lúcida. Poeta a parir prosa feito artesã de si mesma. Se não nascemos inteiros, vamos nos fazendo. Assim é a escritora Letícia Palmeira.

-Traz as compotas da vida em palavras. Os potes de açúcares literais. Diz do homem desconexo, de filosofias e ervas. A vida o que é? Fala de flores e de sabão em pó, fala de sol e de lua, de madalenas e banheiros. Será o impossível? Que perigo é uma mulher pensadora, sentidora, criadora, na plena posse questionadora de si e do que a cerca? A literatura de pequenos espetáculos resgatados. Ah os origamis dos dias...

-Quando escreve é só uma espécie de strip-tease, em que desnuda a vida em toda a sua magnitude? Que labirinto é o pensar/sentir/amar, um quebra-cabeças em que se situa sensual, come e bebe de literatura cozida em vapor de existencialização, feito um fio de Ariadne para ramificar a sua própria contemplação?

No livro, Zélia Farias (Especialista em Língua e Literatura Anglo-Americana pela Universidade Federal da Paraíba) muito bem diz: “Letícia foi Alice um tempo(...). Já era o tempo em que se cercava a Mário Quintana, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Ana Cristina César, Lygia Fagundes Telles (...)”. Existir é a arte da paciência sem tédio ou remorso, ou muito pelo contrário? Letícia Palmeira é a busca viva desse entendimento. Mia Couto (in, Último Desabafo de Arcanjo Mistura), diz que esse mundo não é falso. Esse mundo é um erro. Será o impossível? Ah o solilóquio da reflexões depuradas!

-Na sua exuberante literatura, Letícia Palmeira escreve recortes de vida, páginas de angústia e desprendimento, paradoxos e cisternas, olhares plangentes, fragmentos e matizes corajosos, prosa e poesia, um verdadeiro liquidificador de idéias e cobranças a partir disso, feito uma artesã que junta carne e luz, céu e terra, caracóis e pedras, defeitos de fabricação e peças de reposição, coletivos e plurais.

O mundo está dividido entre magoados e inquietos, disse Gabriel Garcia Marques. Nem sempre a lágrima é a medida de todas as coisas. Ler Letícia Palmeira é um deleite. A flor corajosa da arte e da vida, numa linguagem que situa a lucidez e a criatividade. A mulher exercitando a sua plenitude. Daí, a literatura pura.

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Silas Correa Leite – Autor de Campo de Trigo com Corvos, Contos, Editora Design

E-mail:
poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net




sexta-feira, 30 de julho de 2010

Opinião

Especialista em islã avalia os impactos da lei do véu aprovada recentemente na França

Doutora em Antropologia Social, a especialista em islã e professora do curso de pós-graduação em Globalização e Cultura da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Francirosy Ferreira analisa os impactos da lei do véu aprovada recentemente pelo Parlamento francês

Cubram-se com os seus véus!

Francirosy Ferreira*

Em 13 de Julho de 2010 um projeto de Lei nº 524, que entrará em vigor em seis meses após a sua promulgação, foi aprovado na França. Este projeto proíbe o uso da burqa (vestimenta islâmica usada no Afeganistão e no Paquistão) e do niqab (mais usado na península árabe) em vias públicas, em lugares abertos ao público e os destinados aos serviços públicos.

Cabe refletir se este projeto garante autonomia às mulheres muçulmanas. Certamente que não! Considerar que toda mulher que usa burqa ou niqab são submissas e devem ser "salvas" pelos ocidentais é tão violento quanto obrigá-las a usar tal vestimenta. É importante dizer, que o véu não subtrai o pensamento, e a ausência dele não é significado de autonomia. Na França vivem mais de cinco milhões de muçulmanos, mais ou menos duas mil mulheres usam essas vestimentas (burqa e niqab), o que não justifica tal reação. Ao fazer tais proibições estamos deixando de reconhecer e de respeitar às diferenças étnicas e religiosas. A desculpa de proteger essas mulheres não convence à comunidade, nem os Direitos Humanos.

São dois os motivos para proibição do uso dessas vestimentas em público: por questão de segurança (associando o uso da burqa e do niqab ao terrorismo) e o outro motivo refere-se em termos de tradições e costumes de um país (liberdade das mulheres), como acontece na França. A proibição ao uso dessas vestimentas islâmicas tenta esconder um certo "discurso civilizacional" e "ideológico".

A polêmica sobre o uso do véu na França não é recente. Em 1989 o colégio Gabriel Havez teria proibido suas alunas muçulmanas de usarem hijab. Atitude essa que foi recebida com muito protesto. Em luta pelo direito de usar o véu como ocorreu na França em 1989, jovens muçulmanas, que estudavam no colégio saíram em passeata pelas ruas de Paris. A proibição fez com que mais meninas passassem a usar o hijab em sinal de demonstração da sua identidade.

Após o atentado terrorista ao World Trade Center em 11 de Setembro de 2001, o Islã virou foco da mídia, e da comunidade intelectual, mas é possível constatar o crescimento da religião neste período, pude constatar o crescimento de revertidos[1] à religião, sendo que a maioria dessas reversões foi feitas por mulheres. Essas brasileiras, como bem afirmou, no vídeo, Vozes do Islã, Nadia Hussein "não se sentem oprimidas pelo véu".

Sabemos, portanto, que o uso de burqas e niqab são designados por grupos muçulmanos que interpretam a determinação alcorânica de forma extrema, mas também, não seria conveniente avaliar que há aceitação por parte de mulheres que acreditam que essa seja a forma correta de se apresentarem publicamente e de demonstrarem a sua adoração a Deus? Por que quando se trata da religião dos outros, somos intolerantes? É preciso considerar que o desejo de liberdade e de libertação é histórico e situado.

A vestimenta islâmica usada pelas mulheres significa: a modéstia, estar conectado com a sua família, demonstra o orgulho que essas mulheres sentem da sua comunidade, da sua família. Deixar de usar a burqa (niqab, xador, hijab) pode significar um estranhamento muito grande dos laços de parentesco. Então, considerar a ocidentalização como alguma coisa boa, pode ser um grande erro, que pode deixar sequelas na vida dessas mulheres, como por exemplo, limitar a circulação dessas mulheres ao espaço doméstico, pois agora estão proibidas de saírem às ruas com as suas vestimentas. É importante considerar que o sentido do self, as aspirações e os projetos dessas mulheres foram constituídos no seio de tradições não liberais. E exigir que elas tenham a mesma visão de mundo, de pessoa, de comunidade dos outros é querer uma homogeneização social que não existe, pois se a diversidade cultural existe, ela deve ser boa para gente pensar - parafraseado Claude Lévi-Strauss - e para respeitar.

*Francirosy Ferreira é doutora em Antropologia Social, docente do curso de pós-graduação em Globalização e Cultura da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), e organizadora da coletânea "Olhares femininos sobre o Islã: etnografias, metodologias e imagens". São Paulo: Editora Hucitec, 2010.

 

[1] Para os muçulmanos, todos os homens nascem muçulmanos, isto é, nascem submissos a Deus, mas por qualquer razão se afastam deste caminho, o retorno ao caminho, à senda reta, como costumam dizer, significa retornar, por isso reversão e não conversão, como vários especialistas preferem usar. Para ser fiel aos termos usados pelos nativos, uso o termo reversão, para saber mais sobre esta categoria ver (FERREIRA, 2009, revista litteris)

 

 

terça-feira, 27 de julho de 2010

mensagem:) jogue fora as suas batatas!


MENSAGEM




Jogue fora suas batatas!



O professor pediu aos alunos que levassem uma bolsa cheia de batatas para a sala de aula em determinado dia.

Em cada uma delas, ele pediu que fosse escrito o nome de pessoas de quem não gostassem, que lhes magoaram

ou fizeram sofrer em algum momento da vida.

Eles começaram a pensar e foram lembrando uma a uma...

Algumas bolsas ficaram pesadas, com muitas batatas.

Como os alunos tinham que carregar a sacola para todos os lugares, algumas batatas acabaram estragando e ficando

com mau cheiro.

Ao colocar toda a sua atenção na bolsa, os alunos deixavam de observar outras coisas que estavam a sua volta,

inclusive a aula.

O objetivo da atividade era mostrar o peso espiritual diário que a mágoa ocasiona.

Moral da história: ao se incomodar com os outros, a pessoa acaba se esquecendo de si mesma.

Pense nisso e jogue fora as batatas e essas bolsas cheias de magoas. Como Padre?


No Colo de Jesus, e melhor, mais fácil ainda... Evangelizando!!






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domingo, 25 de julho de 2010

Romance Um, de Geraldo Lima - Resenha de Silas Correa Liete









Pequena Resenha Crítica

Romance “UM”, de Geraldo Lima – O Discurso Amoroso da Dialética Consciencial




“Estou farto de muita coisa (...).
Eu quero a destruição de tudo o que é frágil”

Roberto Piva


O que pode o ser humano, senão, entre seres humanos, AMAR?. Parafraseando o poeta, é isso o que se dá, naquilo que Cazuza chama de sua metralhadora cheia de lágrimas, em Um, o romance de Geraldo Lima, LGE Editora, uma dialética do discurso amoroso em que permeia a consciência, o paradoxo, o ser humano (no caso, sensível), entre seres humanos, AMANDO. E com tudo isso, claro, a narrativa que vai e volta, choca e instiga, se esconde, aparenta, cita, permeia, desce e sobe, sempre sob o pântano da condição humana nas relações humanas. Será o impossível? Geraldo Lima debuta e enlaça narrativas como quadros cênicos dessa relação amarga-doce, bonita-feia, alegre-triste, sensual-bizarra, mas, antes de tudo, como as cartas de amores são ridículos – olha o Fernando Pessoa! – romances de amor nesses tempos pós-modernos também. Pior, se entre o sagrado e o profano, a carne e o sangue, o santo e o convexo, vivenciam diálogos impertinentes, bem costurados com arrojo de criar sem cair na pieguice romântica do quase ou tanto... pode se dizer que o amor acaba mas a saga continua. Ex-amores são para sempre?

Pois é: o amor tem sim, loucura que a própria lucidez desconhece.

Como se descascasse uma cebola de relação que ameaça, explicita, sai de cena, pensa-se, o autor vai retaliando a relação, fatiando sofrências, acontecências, dando tempo ao verbo e o verbo se faz carne, como se faz tensão, solilóquio, espírito e carranca. Olha a consciência como leitmotiv. Ana é o fio de Ariadne ou Ariadne é uma consciência sagrada pesando, fio condutor, para um interlocutor (interlocutora – a consciência?) onde sempre depositamos o pão e o vinho, do que se vem da carne nas relações proibidas/permitidas, só sonhadas, quem o sabe? Crime e castigo? Ah o crime de amor que faculta o existir... A consciência é a serpente que envenena intenções (ou possíveis intenções em treva branca), ou clarificando pensares, ilações/alusões, faz um inventário de partilhas íntimas, abre véus, aponta o que existe e até o que não existe?

Geraldo Lima demonstra isso aqui e ali, teatrizando ora o possível, o entendido como havido, o medo de algo-alguma coisa, resvalando ora na poesia, ora na prosa, ora meio que lispectoriano sem perder a mão (e a ternura) jamais. Gostoso lê-lo.

A Ana que foi (foi?) e já não é. A Ariadne que poderia ter sido e não foi. O entremeio, o intertexto, as citações, o seminário (que aqui vem de sêmen?...); o possível pecado de, o padre e os estudos, o corpo, a devassidão; nunca completam de uma perdição cobra-cega no paraíso do contar. Que consciência é o divã? Divã de idéias; divagar delas, ah o romance como fio de meada, fio de Ariadne, olhar enviesado, tirar de véus, entrecortar, contando, entrecontar, cortando, pinceladas mágicas de ternura, sensibilidade, como se tudo entre quatro paredes, o voyouver, e vai por aí o bolero-(tango-)mixórdia da contação. O castiço a rapariga, o mortiço dos ambientes propositalmente turvos, e o sexismo, o amor e o pudor. UM, o Romance de Geraldo Lima poderia também se chamar Inferno, fosse invocada a consciência como narradora. Tudo bem, é o espírito que ama o espírito, antes do corpo amar o corpo... isso, nas fáceis vidas difíceis, mas, entre uma sedução e um seminarista, tudo ralhado, há bulhas e cismas. Periga ver. Sentir, chocar com o olhar do que conta o vai-da-valsa, com um medo-coisa, uma solidão-embuste, uma aparência que, sim, engana. De propósito?

Depois que conhecemos o amor, em que lugar (de nós) deixamos as asas? Extremos e lumes. Sangria desatada a... de novo, consciência... repigando sentimentos e ressentimentos. Tudo a ler.

Que cenário é a mente, a casa, a história, lugares nenhuns, todos os lugares? Paulo tece os momentos que passou com Ana, a quase fêmea-fatale (não são todas?), a mulher-aranha com quem morou por algum tempo. Fala da amiga Ariadne, tece acontecimentos e pessoas como referências de vida de passagem. E há o padre Artur, que lhe foi uma espécie de mentor. Com o autor caímos na redoma de vidas, além, claro, de uma sua experiência transformadora que nos leva a reflexões ora incabidas, ora insabidas, ora sagraciais. Sim, meus irmãos, cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é, e o que não é. Cada um sabe de que luz faz cruz, de que devaneio faz sentimento, de que santeria interior faz nau insensata, de que atitudes impróprias congela momentos, visões, prismas. Escrever é colocar dúvida em nós mesmos, a partir de olhares novos sobre frinchas revisitadas.

UM é isso: um romance sempre no começo de uma relação que é posterior e anterior ao seu tempo estagnado, mas que viça pela palavra, se alonga, debulha, questiona, avalia e até trinca intenções. Há entrelinhas no ler...

Que milagre é amar e escapar ileso? Escrever é lembrar, lembrar é escrever/ascender (e acender velas na solidão de uma alma em conflito). Depois que um corpo conhece outro corpo, fugir é mergulhar nele, mesmo que seja num palavrear confeitos, contrastes e ramificações do verbo sentir. E pensar é sentir com a alma. A carne é fraca, meus irmãos, o Romance UM foge do cepo da consciência, para cair no labirinto das confrontações. Um romance e tanto. E atual, moderno, nesses tempos em que uma igreja decrépita mostra as vísceras, em que a nódoa da historia nela depositada é remorso, e em que os que passam pelo genuflexório têm que rezar defeitos, lamúrias e resignações de fugas ainda não depuradas. Há um Deus? Periga ver.

A correnteza da narrativa é o contra-fluxo do medo de amar até a página tal, o lado b do que se passou. Há coisas no ar. UM é apenas o começo do zero ao infinito. Tudo pode ser, como também não. Tudo pode ter acontecido, como pode ser um delírio bem orquestrado entre o que houve e o que se coube na relação até o limite do provável.

A mão que oferece a maçã, oferece o delírio do corpo, da carne, do afeto trocado. Amou tem que rezar? A cartilha do amor é o corpo do êxtase levado ao destempero. Amar e sofrer. A corrupção do corpo. A delação da mente. Turvamos o historial para sentirmos a transparência de nós mesmos? Mia Couto dizia que a melhor maneira de mentir é ficar calado. E narrar o questionável? Si, sem o prazer não podemos parecer humanos. E o humano em nós desmonta o falso-sagrado em nós. Escrevemos para medir o destino, ou o amor é um erro?

Geraldo Lima é professor de literatura, e conhece do oficio de romancear. Tem outras obras, alguns prêmios, retrata as relações humanas levadas ao extremo, entre o zelo, entre a mancha; do achado entre o perdido, das neuras e dos perigos letrais das relações amorosas, feito um discurso da posse de, da libertação de, dos atropelos de.

Amar se aprende amando, diria o poeta. Há muita poesia no Romance UM de Geraldo Lima. Ler a obra é desnudá-lo. Ficamos cegos de tanto sentir, ou ler é tirar as tintas e panos do que ele conta, para sentirmos na pele que o livro vai além da experiência mística que inventa de contar?

Que hamster é o ser humano para o suplicio do conviver entre desiguais? Primatas querendo ser divinizados experimentam os horrores das contundências.

O Tibete talvez seja descobrir o humano em nós, depois que passamos tanto tempo no piloto automático da vida infame. E aí entra o amor na sua mais pura devoção, mesmo que paralelo ao medo do fotógrafo que retrata em nós a entrega despudorada, o inominável da submissão à carne, a tarja preta e o código de barras feito sermos todos nós ainda e assim, por isso mesmo o Número UM, introspectivo ou não, daquilo que sabemos de nós, entre o defensor e o algoz, a consciência e a circunstancia de.

O escritor é o que, com uma lanterna, procura o número que somos, que parecemos, que multiplicamos em silêncios, palavras, moinhos de ventos, filtrações e sagradas escrituras. Sagradas?

-0-

Silas Correa Leite – Poeta, Ficcionista, Resenhista
Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue: www.portas-lapsos.zip.net


Escritor Geraldo Lima






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