quarta-feira, 25 de abril de 2012

Zinho e suas notícias





Pedro Coimbra

            Zinho dizia que havia nascido numa cidade litorânea que ninguém sabia qual era.
Andava trôpego, como se fosse o andar de um marinheiro e contava que tinha sido taifeiro.
- Isso é importante? – queria saber Creusa, mulata por quem Zinho era apaixonado.
No seu dia-a-dia se especializara em casos assustadores.
- Sabe da última? O Benvindo pedreiro escorregou na lama e caiu do andaime da obra em que trabalhava...
- Morreu?
- Ficou fincado na terra até os cotovelos. Dra Jerusa disse que não anda nunca mais....
As pessoas sabiam do que gostava e o provocavam:
- Qual a última, Zinho?
Ele olhava pro céu azul, pensava um pouco e respondia:
- A Polícia prendeu um tal de Heleno, lá pras bandas do Floresta...
- O que ele fez?
- Suspeitam que matou a mulher a facadas diante dos cinco filhos...
Andava por toda a cidade, conversava com todo mundo, parecia esquecer em um minuto qualquer boa nova.
- Descobriram um bando de garotas especializadas em roubar motoristas de carretas – ele contava – Roubavam, matavam e jogavam o corpo na beirada da estrada.
Suas histórias não se sabia onde haviam acontecido, se ali perto ou em qualquer outro lugar.
Zinho era um agourento e o próprio Padre Carlos uma vez o chamou e repreendeu seu comportamento.
- Uma pessoa não pode viver assim, Zinho! – disse o sacerdote.
Ele prometeu que mudaria seu jeito de ser. Não passou mais de uma hora, sentado no botequim da esquina, contava para uma pequena plateia o caso do filho que matara a mãe, por uns míseros tostões para comprar droga.
- Isso aconteceu aqui, Zinho?
- Em todo lugar, em todo momento – ele respondia com um muxoxo – O mundo está perdido!
E saia procurando outros ouvintes e outras notícias.
Gostava muito também de lembrar o grande navio que afundara, em que mais de mil pessoas morreram.
- Por que acontecem tragédias como essas? – alguém queria saber.
- São desígnios de Deus... - respondia Zinho.
Creusa acabou por lhe dar uma reprimenda;
- Você precisa mudar seu jeito de ser – ela disse – Ou pode desistir de ficar comigo.
Zinho prometia que ia mudar sua maneira de ser, que iria se preocupar com as boas coisas que aconteciam neste mundo de Deus.
Saia entristecido e se encontrava com alguém que lhe contava que na madrugada havia acontecido um sério acidente de carro.
- Quantos morreram? – queria saber Zinho.
Se dissessem que não havia vítimas, desinteressava pelo assunto.
A única má notícia que Zinho não pode contar para os outros foi o da sua morte, vitimado por um prosaico AVC...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

CEDECA RJ lança cartilha de educação política para adolescentes com participação do cientista político Jairo Nicolau

  Publicação “Quem cuida… da minha cidade? do meu estado? do meu país?” explica, em linguagem acessível, o funcionamento dos cargos político...