quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Da Intuição à Inteligência: A Gestão Pecuária 2.0

 


Oberdan Pandolfi Ermita*

 

A pecuária brasileira foi construída com suor, dedicação e muito trabalho. Esse setor, que carrega orgulho e tradição, busca manter seu legado para as próximas gerações. Mas o mundo está mudando — e se digitalizando — e o produtor percebe e gostaria de acompanhar essas transformações. Em termos de gestão, existe uma lacuna entre o que a tecnologia vem permitindo e o que é acessível para a maioria dos pecuaristas. 

 

É nesse cenário que a Inteligência Artificial (IA) se apresenta como uma verdadeira revolução da gestão de manejo da pecuária. Assim como as fintechs simplificaram a vida financeira, a ferramenta está simplificando a vida do produtor rural. A chave é a democratização da gestão, utilizando a Inteligência Artificial (IA) para tornar o processo intuitivo e, principalmente, acessível. A grande ‘sacada’ é que a tecnologia se adapta ao ‘jeitão’ do produtor e não o contrário. Em vez de exigir mudanças drásticas na rotina, utiliza-se uma ferramenta que já faz parte do dia a dia de todos: o WhatsApp.

 

Ao permitir que o produtor registre seus manejos e observações de forma simples e direta pelo WhatsApp, a plataforma remove a barreira de entrada da complexidade. A IA, então, entra em ação, organizando, interpretando e transformando essa massa de dados brutos em informações claras e úteis. O que antes era um cálculo complexo, restrito a consultores caros, agora se torna um painel de indicadores fácil de entender, disponível na palma da mão.

 

O que se observa nos pastos e currais cada vez mais é que o pecuarista no Brasil de hoje tem procurado se conectar ao máximo. Ele também tem se profissionalizado muito mais que em outras fases. Os criadores ao que se tem notícia nunca ficaram tão atentos a tantas exigências que o mercado tem feito. As fazendas definitivamente se tornaram negócios que estão de olho o tempo todo especialmente na sua rentabilidade e desempenho.

 

A imprensa especializada em agro calcula que neste ano, com o apoio da procura internacional juntamente com as novas tecnologias, o Valor Bruto de Produção deve apresentar um aumento de 21,5%. Foi constatado também que no caso da pecuária premium, ela já se consolidou como segmento de mercado, com base em seus diferenciais em técnicas de maturação (que procuram melhor sabor, mais maciez e a suculência na carne) e também dos adventos das novas tecnologias de informação.

 

Nos Estados Unidos as perspectivas são que essa nova tecnologia tende a evoluir bastante na gestão da pecuária nos EUA nos próximos anos. O site ASD Reports Premium Market Research publicou que o mercado global de inteligência artificial (IA) na pecuária de precisão atingiu US$ 2,23 bilhões em 2024 e deve atingir US$ 19,87 bilhões até 2032, crescendo com um CAGR (Compound Annual Growth Rate) ou Taxa de Crescimento Anual Composta de 15,39%, durante o período previsto de 2025-2032. 

 

Esta taxa computa o crescimento médio de um valor (por exemplo, receita, mercado, investimento) ao longo de vários anos, considerando o efeito dos juros compostos. Assim sendo, a invernada ou engorda ‘inteligente’ – intensiva ou extensiva – fica cada vez mais apetitosa no campo.

 

 

 

*Oberdan Pandolfi Ermita é economista pela Universidade Federal do Espírito Santo, produtor rural e dirigente cooperativista. Possui MBA em Gestão Financeira de Cooperativas de Crédito pela Fundação Getúlio Vargas e é doutorando em Economia Aplicada pela Universidade de Madrid. Atuou como professor de graduação e pós-graduação, e também foi consultor em projetos econômicos. Atualmente é presidente do Conselho de Administração na Sicoob Credip. É um dos precursores da IABOIhttps://iaboi.com.br/ ), tecnologia de IA por WhatsAPP para a pecuária bovina. 

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Monitoramento de 30 anos aponta vantagens da Exploração de Impacto Reduzido (EIR) para conservação e produção de madeira

 

Uma pesquisa desenvolvida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) revela que o manejo florestal com técnicas de Exploração de Impacto Reduzido (EIR) promove maior recuperação de biomassa e resiliência em florestas tropicais da Amazônia quando comparado à exploração convencional (EC), considerada predatória.

O trabalho foi realizado pelo engenheiro florestal Rodrigo Costa Pinto, como tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Recursos Florestais da Esalq, sob orientação do professor Edson Vidal, do Departamento de Ciências Florestais. A pesquisa teve colaboração da Embrapa Amazônia Oriental e da Wageningen University (Holanda), com apoio da Capes e da Fapesp.

O estudo avaliou 30 anos de monitoramento em áreas de floresta manejadas na Fazenda Agrosete, em Paragominas (PA), utilizando inventários florestais periódicos e tecnologia de sensoriamento remoto com LiDAR embarcado em drones. Os resultados apontam que áreas submetidas à EIR recuperaram 128% da biomassa original em 24 anos, enquanto áreas exploradas de forma convencional permaneceram abaixo do nível inicial, com cerca de 90% da biomassa recuperada.

Além da biomassa, a EIR apresentou melhor estrutura do dossel (maior altura e índice de área foliar, com menor abertura de clareiras) e maior resiliência frente a eventos climáticos extremos. O estudo também demonstrou que o uso integrado de inventários de campo e LiDAR é uma ferramenta eficiente para monitorar a recuperação florestal, subsidiando práticas de fiscalização e planejamento sustentável.

Segundo Rodrigo Costa Pinto, a pesquisa traz uma base científica sólida para fomentar a transição de práticas convencionais para o manejo de impacto reduzido, fortalecendo políticas públicas e mecanismos como REDD+ e Incentivos ao Manejo Florestal. “A EIR não apenas reduz os danos imediatos, mas também garante maior resiliência das florestas tropicais a longo prazo”, destaca o pesquisador.


vista aérea da fazenda Agrosete,em Paragominas (PA) - crédito: Rodrigo Costa Pinto

Estudo aponta oportunidades para produtores brasileiros no mercado internacional de tilápia

 

Principal peixe produzido e exportado pelo País, a tilápia é o carro-chefe da aquicultura nacional

Um estudo realizado pela Embrapa mapeou o mercado de tilápia na Europa e nos Estados Unidos, indicando oportunidades e desafios para os produtores brasileiros. Principal peixe produzido e exportado pelo País, a tilápia é o carro-chefe da aquicultura nacional, setor que tem crescido de forma consistente nos últimos anos. Apesar desse avanço, ainda há grande potencial a ser explorado, considerando características naturais do Brasil, como qualidade da água e disponibilidade de áreas que podem ser incorporadas à produção.

Os cenários são diferentes nas duas regiões. O consumo de tilápia por pessoa na Europa é muito baixo, ficando em média em 39 gramas por habitante por ano. Destaque para a Bélgica, que apresenta média de 147 gramas por habitante por ano. Porém, bem abaixo da média de consumo nos Estados Unidos, que é de 460 gramas por habitante por ano. Entre os europeus, o consumo é mais de nicho, focado em grupos étnicos de origem latino-americana, árabe, asiática e africana. Já nos Estados Unidos, desde a década de 1990 houve expansão no consumo, o que levou a tilápia a ser um dos peixes mais consumidos; entre os de carne branca, lidera.

Quem detalha esse quadro é Manoel Pedroza, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO): “no caso dos Estados Unidos, chama a atenção a grande popularidade da tilápia junto aos consumidores em todo o país, o que tem proporcionado o crescimento do consumo de diversos produtos de tilápia, tanto frescos como congelados. A tilápia rompeu os nichos de mercados asiáticos e latinos e hoje é um produto consumido de maneira ampla. Por outro lado, no caso da Europa percebemos um consumo de tilápia bem mais limitado, sendo focado nos nichos de mercados étnicos e em produtos congelados com preços mais reduzidos”.

Naturalmente, o recente tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump afetou as exportações brasileiras para os Estados Unidos. Mas numa intensidade menor que a projetada. O resultado de agosto deste ano (primeiro mês com vigência do tarifaço) indicou queda, em toneladas, de 32% nas exportações comparando-se com agosto de 2024. “Especialistas do setor esperavam uma queda maior e esse resultado mostra que o setor continua presente no mercado norte-americano, mesmo no cenário atual”, afirma Pedroza.

Oportunidades e desafios

O pesquisador da Embrapa enxerga uma oportunidade de o Brasil crescer suas exportações de tilápia congelada para os Estados Unidos, ampliando a presença, que hoje é mais forte no mercado de filé fresco (foto à direita) naquele país. Segundo Pedroza, apesar de o mercado de congelados ser mais competitivo em termos de preço, possui uma demanda bem maior. “Algumas empresas brasileiras já vinham investindo na exportação de tilápia inteira e de filés congelados para os Estados Unidos, mas o tarifaço atrapalhou esse processo”, complementa.

Com relação ao mercado europeu, quando a etapa de reabertura for vencida, há uma boa oportunidade para o Brasil exportar produtos frescos de tilápia. Pedroza projeta que “os exportadores brasileiros podem se beneficiar da boa reputação do filé fresco de tilápia do Brasil e também aproveitar a grande oferta de voos para diversos países da Europa, tendo em vista que o transporte aéreo é essencial para os produtos frescos. No entanto, será necessário um trabalho robusto de divulgação dos produtos brasileiros e desenvolver a demanda por tilápia fresca, que atualmente é baixa na Europa”.

Como oportunidade para a tilápia brasileira na Europa, a pesquisa indica que os exportadores podem investir numa estratégia de diferenciação que destaque a qualidade do produto nacional. Além disso, há necessidade de se abrir mercados além dos tradicionais nichos étnicos e também de competir com outras espécies que têm filés brancos, como panga, polaca do Alasca e perca do Nilo. Um fato que pode aumentar a competitividade de vários produtos de tilápia exportados para a Europa, inclusive os brasileiros, diz respeito aos preços da tilápia chinesa, que estão subindo por conta de aumentos nos custos de ração e de transporte naquele país.

Já no mercado dos Estados Unidos, a pesquisa aponta como oportunidades: valorização da tilápia brasileira em nichos considerados premium por conta da qualidade do produto; crescente demanda por rastreabilidade; queda na oferta de tilápia da China e de alguns países da América Central; o segmento de tilápia congelada; e agregação de valor em produtos, a exemplo de novos cortes, empanados, tilápia vermelha e embalagens prontas para consumo.

Como desafios, a pesquisa lista, na Europa: tornar a tilápia mais conhecida por meio de ações de comunicação e de marketing junto a diferentes públicos, além da participação em eventos relevantes sobre pescado; estabelecer preços competitivos para que seja mais viável acessar o mercado daquele continente; e focar, de maneira estratégica, na qualidade como diferencial frente a outras espécies que também têm carne branca.

Já os desafios para os produtores brasileiros de tilápia no mercado dos Estados Unidos envolvem, de acordo com a pesquisa: o conhecido e recente aumento das tarifas de exportação, o chamado tarifaço; a necessidade de redução de preços para aumento da competitividade do produto naquele mercado; a logística para exportação de produtos frescos, que exige agilidade e um processo cada vez mais dinâmico; e a exigência de certificação internacional.

A pesquisa, que gerou a publicação de dois informativos especiais (links nos quadros abaixo), foi feita no âmbito do projeto “Fortalecimento das exportações brasileiras da aquicultura”, coordenado e executado pela Embrapa Pesca e Aquicultura. O financiamento foi por meio de emendas parlamentares de números 45000016 e 31760007. A pesquisa contou também com apoio da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR).

Imagem: Freepik

 

Produção de tilápia no mundo

Entre 2013 e 2023, a produção mundial de tilápia cresceu 43%, passando de 4,75 milhões de toneladas para 6,78 milhões de toneladas. A China lidera o ranking, com 27% da produção (1,8 milhão de toneladas), em 2023. Na sequência, vêm Indonésia (com 1,4 milhão de toneladas, o equivalente a 21% da produção) e Egito (que produziu 960 mil toneladas, que representam 14% do total). Os dados são da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O Brasil ocupa a quarta colocação, com produção de 440 mil toneladas, o equivalente a 7% da produção mundial em 2023. Foi um crescimento significativo com relação a 2013, quando o País produziu 170 mil toneladas. A variação positiva nesse período de dez anos chegou a 161%. A participação brasileira em termos percentuais também cresceu, passando de 4% em 2013 para os 7% em 2023. Outro avanço foi com relação ao ranking: o Brasil ocupava a oitava posição em 2013; dez anos depois, subiu para a quarta colocação.

Foto: Manoel Pedroza

 

Mercado na Europa

A tilápia ainda ocupa posição discreta no varejo europeu quando se analisam os peixes brancos. Em 2024, foi a sexta espécie mais importada, com 36,6 mil toneladas num universo total de quase 1,4 milhão de toneladas. Quando comparado com outras espécies que têm a mesma faixa de preço no varejo, o volume da tilápia equivale a 11% das importações de polaca do Alasca (que totalizaram 323,3 mil toneladas em 2024) e a 47% das importações de panga (que chegaram a quase 77 mil toneladas no mesmo ano).

De acordo com a publicação da Embrapa, “as importações europeias de tilápia têm apresentado estabilidade ao longo dos últimos dez anos, se mantendo em torno de 35 mil toneladas por ano. Entre 2014 e 2024, as importações dessa espécie na Europa cresceram 13,5% em valor e apenas 2,4% em volume”. Um fato que chama a atenção é que, entre os dez principais países que exportam tilápia para a Europa, seis são considerados reexportadores, ou seja, recebem e repassam o produto a outros países. Os outros quatro são asiáticos: China, Vietnã, Indonésia e Tailândia. Os dados são do European Market Observatory for Fisheries and Aquaculture Products (Eumofa).

 

Mercado nos Estados Unidos

Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos a tilápia foi a segunda espécie de peixe mais importada em 2024. As mais de 185,5 mil toneladas equivalem a 13% do total naquele ano. À frente da tilápia, esteve o salmão, com 468 mil toneladas e 34% do total importado pelo país em 2024. Em termos financeiros, a tilápia importada pelos Estados Unidos no ano passado movimentou mais de U$ 740 mil, respondendo por 6% do total. Nesse ranking, o atum esteve à frente, com mais de U$ 860 mil ou 7% do total financeiro. Na liderança, novamente o salmão, que movimentou mais de U$ 5,760 milhões, metade do total. Os dados são do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Segundo a publicação da Embrapa, “entre 2014 e 2024, as importações de tilápia dos Estados Unidos passaram de 232.290 toneladas para 185.522 toneladas, ou seja, uma queda de 20%. Nos últimos anos, as importações norte-americanas de tilápia têm se estabilizado em torno de 180 mil toneladas”. Mesmo dominando essas importações, a China viu caírem os índices no período. De 69% do total em termos financeiros em 2014, foi para 52% em 2024; já em termos de peso, passou de 75% para 67%, respectivamente. O Brasil, que, no ano passado, foi o quarto maior exportador de tilápia para os Estados Unidos, não figurava entre os dez principais em 2014. Em termos percentuais, foram 7% do valor e 5% do peso importados pelos EUA em 2024.

 

Clenio Araujo (MTb 6279/MG)
Embrapa Pesca e Aquicultura

Oficina sobre Bancos Ativos de Germoplasma e melhoramento genético de frutíferas nativas do Cerrado é realizada na Embrapa Cerrados

 


Foto: Fábio Faleiro

Fábio Faleiro -

Como ação do projeto “Plantas para o Futuro”, apoiado pela Embrapa Cerrados, foi realizada no dia 1º de outubro uma oficina sobre Bancos Ativos de Germoplasma e melhoramento genético de frutíferas nativas do Cerrado, com a participação de 37 profissionais. O objetivo foi promover a valorização e o uso sustentável de espécies nativas do Cerrado com potencial econômico, estimulando o conhecimento prático e a troca de saberes.

A oficina envolve parcerias com várias instituições como Embrapa Hortaliças (DF), Jardim Botânico, Universidade de Brasília e Universidade do Distrito Federal, Emater-DF, Secretarias de Estado de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural e do Meio Ambiente do Distrito Federal, além do Instituto Desponta Brasil, organizador do evento.

O coordenador nacional do Plantas para o Futuro, Lídio Coradin, e a engenheira agrônoma Julcéia Camillo apresentaram a iniciativa, voltada à promoção do uso, valorização do conhecimento e conservação da flora nativa brasileira em prol da presente e das futuras gerações.

Os participantes da oficina visitaram os Bancos Ativos de Germoplasma (BAGs) e Melhoramento de Frutíferas do Cerrado, apresentados pelo chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Unidade, Fábio Faleiro; de Pequi, Baru e Mangaba, apresentados pelos pesquisadores Helenice Gonçalves e José Teodoro de Melo; de Baunilhas e Açaí, apresentados pelos pesquisadores Wanderlei de Lima e Fernando Rocha; e de Maracujás, Pitayas, Araçá e Macaúba, apresentados por Faleiro e pelo pesquisador Nilton Junqueira.

Na região Centro-Oeste, existem mais de 170 espécies de plantas nativas com potencial econômico atual ou futuro. Para conhecer mais sobre essas espécies, baixe gratuitamente o livro “Espécies Nativas da Flora Brasileira de Valor Econômico Atual ou Potencial – Plantas para o Futuro – região Centro-Oeste” clicando aqui

Na Embrapa Cerrados, diversas ações de pesquisa e desenvolvimento relacionadas à caracterização e uso de germoplasma e melhoramento genético são realizadas envolvendo frutíferas nativas – maracujás, pitayas, pequi, baru, mangaba, macaúba, araçá – e, mais recentemente, açaí e baunilhas. Para conhecer um pouco mais sobre esses trabalhos, baixe gratuitamente o livro “Pesquisa e Inovação em Germoplasma e Melhoramento Genético na Embrapa Cerrados” clicando aqui.

Núcleo de Comunicação Organizacional - NCO
Embrapa Cerrados

SUS – 35 anos!



Dimas Ramalho
Era 1988 quando o Brasil deu um passo decisivo rumo à democracia. Recém-saído de duas décadas de ditadura, o país escrevia uma nova Constituição, moldada pelos ideais de justiça, inclusão e dignidade. Naquele momento histórico, uma frase ecoou com força e esperança: “Saúde é direito de todos e dever do Estado.” Nascia ali, mais do que um artigo constitucional, um compromisso com a vida.
Dois anos depois, em 19 de setembro de 1990, esse lema ganharia corpo e substância com a criação do Sistema Único de Saúde –o nosso SUS.
Agora, em 2025, ao completar 35 anos de existência, o SUS pode ser considerado uma das maiores invenções coletivas do povo brasileiro. Em um país marcado por desigualdades sociais gritantes, ele é o elo que une milhões de pessoas em torno de um ideal comum: o acesso gratuito e universal à saúde. Não importa se você está no sertão nordestino, na periferia das grandes cidades ou numa aldeia indígena da Amazônia. O SUS está lá –cuidando, vacinando, tratando, prevenindo.
Não existe no mundo um sistema com tamanha capilaridade e abrangência. E ele não se limita a hospitais: está nas Unidades Básicas de Saúde, nas ambulâncias do Samu, nos centros de saúde mental, nas salas de vacinação, nos laboratórios de vigilância sanitária, nas farmácias populares e nas unidades de pronto-atendimento.
Embora seja para todos, é sobre os mais vulneráveis que recai sua importância mais decisiva: para milhões, o SUS é a única porta aberta para cuidar da saúde.
Ao longo dessas três décadas e meia, o sistema acumulou vitórias que transformaram o Brasil. Foi assim quando, num gesto corajoso, o país decidiu distribuir gratuitamente medicamentos antirretrovirais para pessoas vivendo com HIV/AIDS, desafiando o mercado e salvando milhares de vidas. Foi assim quando criou um dos maiores programas públicos de transplantes do planeta. Em 2024, bateu recorde: 30.303 transplantes de órgãos e tecidos, 85% totalmente financiados pelo SUS.
Se hoje o Brasil é exemplo mundial na luta contra o tabagismo, com uma das menores taxas da América Latina, isso se deve a políticas coordenadas entre vigilância sanitária, campanhas educativas e apoio ao tratamento, todas lideradas pelo mesmo sistema que também se tornou essencial nas emergências médicas com o Samu 192, levando atendimento pré-hospitalar rápido a lugares onde, antes, ninguém respondia aos gritos por socorro.
Mas é na base que acontece a revolução mais silenciosa. A Estratégia Saúde da Família, modelo de atenção primária utilizado no Brasil desde 1994, acompanha o cidadão desde o nascimento, prevenindo doenças, monitorando condições crônicas e formando vínculos duradouros entre profissionais e comunidades. É ali que a saúde começa de verdade, nos pequenos gestos, nos acompanhamentos de rotina, na escuta atenta de quem cuida.
A força do SUS também se expressa na vacinação infantil. Graças ao Programa Nacional de Imunizações, o Brasil erradicou doenças como a poliomielite, tornando-se exemplo mundial em campanhas de vacinação em massa.
Mas o sistema também enfrenta desafios profundos e persistentes. O mais estrutural deles é o subfinanciamento crônico. Desde sua criação, o sistema opera com menos recursos do que necessita. As verbas, embora crescentes em valores nominais, não acompanham plenamente as necessidades demográficas, epidemiológicas e tecnológicas. A judicialização crescente, com decisões que obrigam a compra de medicamentos fora da lista oficial, impõe custos imprevisíveis.
Segundo estimativas da Instituição Fiscal Independente, o gasto com saúde pública precisará crescer cerca de R$ 10 bilhões anuais nos próximos anos, ou 3,9% ao ano, para garantir um SUS minimamente adequado à demanda da população. Sem esse acréscimo, o sistema continuará convivendo com filas longas, espera por exames, carência de profissionais e infraestrutura deficiente, especialmente nas regiões mais pobres.
Mesmo assim, o SUS resiste. Porque é sustentado não apenas por recursos públicos, mas por uma legião de profissionais dedicados, por comunidades que participam de conselhos de saúde, por movimentos sociais que pressionam por melhorias e, sobretudo, por uma população que aprendeu enxergá-lo como um patrimônio coletivo.
Durante a pandemia de Covid-19, o SUS mostrou toda sua força. Foi ele quem estruturou a testagem, os leitos de UTI, o rastreamento de casos e, principalmente, a vacinação em massa. Em meio ao caos, o SUS foi abrigo. Foi escudo. Foi esperança. E provou, mais uma vez, que um país sem sistema público de saúde forte está à mercê da tragédia.
Agora, aos 35 anos, o SUS precisa mais do que homenagens. Precisa de compromisso. É hora de romper com as amarras do subfinanciamento, fortalecer a atenção primária, investir em ciência e inovação, valorizar seus trabalhadores e qualificar a gestão pública com foco em eficiência e transparência. É hora de enxergar o Sistema Único de Saúde não como um custo, mas como um investimento em vidas, em cidadania, em futuro.
O SUS não é perfeito, mas uma obra em eterna construção –coletiva, democrática, viva. E cabe a todos nós zelar por ela. Porque onde houver um posto de saúde funcionando, uma vacina sendo aplicada ou uma ambulância salvando alguém, ali estará o SUS cumprindo sua promessa.
Dimas Ramalho é vice-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Uma em cada seis crianças de até seis anos já sofreu racismo

 

Levantamento nacional mostra que 63% dos brasileiros acreditam que a discriminação racial começa já na primeira infância; creches e pré-escolas são os locais em que os casos são mais identificados
 

São Paulo, de outubro de 2025 – Às vésperas do Mês da Consciência Negra, novos dados revelam que 63% da população acredita que o racismo afeta as crianças desde os primeiros anos de vida. A informação integra o “Panorama da Primeira Infância: o impacto do racismo”, pesquisa nacional encomendada ao Datafolha pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. A prevalência dessa percepção é mais comum entre mulheres, jovens e pessoas com maior renda e escolaridade.
 

Os achados revelam que o racismo atinge a infância de forma precoce: 16% dos responsáveis por crianças de até 6 anos afirmam que elas já sofreram discriminação racial. Entre cuidadores de pele preta e parda, esse índice chega a 19%.
 

“Isso é inadmissível em todos os aspectos. Estamos falando de uma fase da vida em que cada experiência conta para o desenvolvimento. Sofrer racismo, sobretudo nessa etapa, pode deixar marcas profundas na saúde, na aprendizagem e na autoestima das crianças”, afirma Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.
 

Os casos também são mais percebidos à medida que as crianças crescem. Enquanto 10% dos cuidadores relataram que crianças de 0 a 3 anos já passaram por alguma situação de discriminação, o percentual sobe para 21% entre os cuidadores de crianças de 4 e 6 anos. Um dos motivos é que crianças maiores conseguem verbalizar e compreender melhor as situações em que estão inseridas.
 

O racismo na escola

A pesquisa revela que creches e pré-escolas são os ambientes mais citados como locais onde crianças já sofreram discriminação racial. Entre os cuidadores entrevistados, 54% afirmam que suas crianças vivenciaram situações desse tipo em unidades de educação infantil, sendo mais frequente na pré-escola (61%) do que na creche (38%).
 

“Esse é um dado que deve ser observado com atenção e cautela. Parte disso pode ser explicado pelo fato de a escola ser um ambiente em que as crianças passam mais tempo e, portanto, ficam mais expostas”, analisa Mariana Luz. “Mas, se por um lado a escola pode ser cenário de discriminação, por outro, ela tem o potencial de ser o espaço onde a diversidade é valorizada e o racismo combatido. Preparar educadores e oferecer materiais adequados, conforme preconiza a Lei de História e Cultura Afro-Brasileira, é essencial para transformar essa realidade”, completa Luz.
 

Apesar de a Lei 10.639/2003 determinar que todas as escolas do país ensinem História e Cultura Afro-Brasileira, a prática ainda está longe de se consolidar. Um estudo realizado em turmas de creche e pré-escola de 12 municípios brasileiros revelou que 89,8% delas ignoram o ensino de questões étnico-raciais. Os dados constam na “Avaliação da Qualidade da Educação Infantil: Um retrato pós-BNCC”, realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Itaú Social, em 2023.
 

Além das escolas, outros espaços também foram citados como locais de racismo: parques e praças públicas (42%), condomínios e vizinhança (20%) e o próprio ambiente familiar (15%).
 

Serviços de saúde e assistência responderam por 6% dos casos relatados pelos cuidadores. Sendo que, nesses espaços, o índice de crianças de 0 a 3 anos que sofreram racismo é maior (12%) dos entre as crianças de 4 a 6 (3%).
 

Como o racismo afeta o desenvolvimento infantil

O enfrentamento do racismo desde cedo é crucial porque as experiências de discriminação estão associadas ao chamado estresse tóxico, que prejudica a saúde física e mental das crianças. Entre os impactos estão dificuldades de aprendizagem, baixa autoestima, rejeição da própria identidade, inibição comportamental e prejuízos na socialização.
 

“Garantir que bebês e crianças cresçam livres do racismo e qualquer outro tipo de discriminação é assegurar seu direito ao desenvolvimento pleno. Esse compromisso precisa ser assumido agora”, conclui Luz.
 

Metodologia

A pesquisa foi realizada entre os dias 8 e 10 de abril de 2025, com uma amostra nacional de 2.206 pessoas, sendo 822 responsáveis por crianças de 0 a 6 anos, que foram ouvidas em entrevistas presenciais em pontos de fluxo populacional. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para a amostra geral e 3 pontos percentuais para o grupo de responsáveis por crianças.
 

Em agosto, uma primeira parte da pesquisa “Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida” foi lançado com foco na percepção da sociedade sobre a primeira infância uso de telas e disciplinas punitivas.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

PESQUISADORES ESALQ E CENA ESTÃO ENTRE OS CIENTISTAS MAIS INFLUENTES DO MUNDO

  

Crédito foto: Denise Guimarães (Divisão de Comunicação Esalq)

Parâmetro central de classificação foca no impacto medido por citações, em vez da produtividade bruta baseada apenas no número de artigos

 

 

A Universidade Stanford divulgou a lista internacional dos cientistas mais influentes do mundo, elaborada desde 2019 pelo professor John P.A. Ioannidis, a partir de indicadores padronizados de citações. Nesta edição, a Universidade de São Paulo (USP) conta com 287 pesquisadores, em um terceiro crescimento consecutivo da USP na relação. Entre os pesquisadores da USP, destacam-se 19 do Campus USP Luiz de Queiroz, em Piracicaba, que agrega a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena).

 

O resultado integra a oitava edição do Updated science-wide author databases of standardized citation indicators, publicado em agosto de 2025. O banco de dados, hospedado no repositório de dados da Elsevier (Mendeley Data Repository), é de acesso público e reúne informações sobre pesquisadores de todo o mundo. A metodologia foi originalmente descrita em artigos publicados na revista PLOS Biology (2016, 2019 e 2020).

 

O parâmetro central de classificação, denominado c-score, foca no impacto medido por citações, em vez da produtividade bruta baseada apenas no número de artigos. O índice também considera o número de coautores e atribui pesos diferentes conforme a posição ocupada pelo pesquisador em cada publicação (autor único, primeiro autor ou último autor).

 

Cientistas mais influentes Esalq e Cena

 

·         Pedro Henrique Santin Brancalion (Ecology)

·         José Alexandre Melo Demattê (Agronomy & Agriculture)

·         Carlos Eduardo Pellegrino Cerri (Agronomy & Agriculture)

·         Paulo César Sentelhas (Agronomy & Agriculture) (in memorian)

·         José Roberto Postali Parra (Entomology)

·         Ricardo Antunes de Azevedo (Plant Biology & Botany)

·         Maurício Roberto Cherubin (Agonomy & Agriculture)

·         João Lúcio de Azevedo (Microbiology)

·         Tsai Siu Mui (Microbiology)

·         Celso Omotto (Entomology)

·         Carlos Clemente Cerri (Agronomy & Agriculture) (in memorian)

·         Paulo Sergio Pavinato (Agronomy & Agriculture)

·         Fernando Dini Andreote (Microbiology)

·         Ernani Pinto Junior (Analytical Chemistry)

·         Quirijn De Jong Van Lier (Agronomy & Agriculture)

·         Roberto Sartori Filho (Dairy & Animal Plant)

·         José Leonardo de Moraes Gonçalves (Foresty)

·         Gilberto José de Moraes (Entomology)

·         Luciano Martins Verdade (Zoology)

 

O Brasil teve 1.461 pesquisadores listados, o que corresponde a 0,6% do total mundial, ocupando a 24ª posição global em 2024. No Estado de São Paulo, foram cerca de 577 nomes, o que representa em torno de 40% do total nacional. Além da USP, destacaram-se a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com 106 nomes, e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), com 80. 

 

Alicia Nascimento Aguiar (com dados do Jornal da USP)

Embrapa participa de debates, mostra tecnologias e lança publicações na Agrotins

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