Todos
sabemos,que aquelas maravilhosas imagens retratando situações de perfeição e de
total felicidade tão veiculadas pela mídia, na verdade são nada mais nada menos
do que cenas minuciosamente planejadas por profissionais de marketing e
interpretadas por pessoas que são pagas para representarem. Nada ali é natural.
Todas as cenas, todos os personagens, são artificialmente perfeitos! Graças às
correções minuciosamente feitas nas imagens. Estes atores e atrizes são
profissionais na arte de representar. E é justamente isso que eles fazem nestas
propagandas: representam personagens com expressões faciais e corporais meticulosamente
preparadas, de bem estar total, com pele, cabelo e corpo perfeito. Conseguindo
com isso, atingirem o objetivo principal das campanhas de marketing: nos
passarem uma imagem de felicidade perfeita e realização plena em todos os
âmbitos da vida. É claro que tudo isso vem sempre associado à marca ou produto
que querem vender. Sabemos também que as imagens de fundo que aparecem, na
verdade são cenários criteriosamente montados exatamente para completar a
espetacular imagem de perfeição que interessa que seja passada. Acredito que
várias vezes, o alcance destas cenas vai além do simples sucesso de uma
propaganda, ou seja, conseguir um alto consumo do produto a que se referem.
Elas também conseguem muitas vezes, nos deixar com um sentimento de insatisfação
resignada, de frustração constante, pois por mais que as desejamos, constatamos
na realidade a inacessibilidade em que se encontram, pois podemos almejar a
perfeição, mas sabemos que alcançá-la é outra história. Diante disso, algumas
vezes, servem também para despertar em muitos de nós um sentimento de
insignificância e de incapacidade. Mas sempre alimentam os nossos sonhos, pois
neles tudo nos é permitido, inclusive podemos deixar de ser meros mortais e nos
transformar em qualquer personagem que idealizamos, em ter tudo que desejamos,
em alcançar qualquer coisa que almejamos, em estar em qualquer lugar que
imaginamos. Acredito que enquanto meros alimentos de sonhos podem ser
efetivamente positivos, pois, se permitir sonhar é extremamente saudável e necessário
para todos nós. O problema é quando se tornam anestésicos e nos paralisam, nos
deixando inertes, com a falsa sensação/ilusão de satisfação plena. E existem
tantas pessoas que se aprisionam nos sonhos!Eesquecem de viver, pois estão
sempre e só sonhando, mas nunca fazendo nenhum movimento para realizar! Ficam
por ai, como se acreditassem que de uma hora para outra, vão realizar os
sonhos, como num passe de mágica! Esquecem que é fundamental abrir os olhos,
arregaçar as mangas, e ir em busca de maneira firme e concreta. Sonhos podem
ser combustíveis sim, de uma vida saudável, feliz. Mas paraser duradouro este
bem estar, é fundamental que alguns destes sonhos sejam transformados em metas,
em projetos, para que se realizem! Todos sabemos que a nossa
vida existe no concreto, que a nossa passagem por este planeta acontece na
realidade, ou seja, estamos aqui para sonhar sim, mas principalmente para
realizar concretamente também! Portanto se passarmos por ela apenas aceitando
nos consolar unicamente com sonhos, nos satisfazendo com os devaneios, e nos
apegando puramente em ilusões, não realizaremos nada, pois abriremos mão das
possibilidades de movimentos que poderiam nos conduzir justamente para a
concretização destes sonhos. Quero lhe dar uma ideia: sonhe muito! Aliás, nunca
deixe de sonhar, mas hoje mesmo, selecione alguns dos seus sonhos e
transforme-os em metas!
Espaço de discussão da revista virtual Partes (www.partes.com.br) Entre e deixe seu recado
terça-feira, 27 de setembro de 2011
VIVA, SEBASTIÃO!
Ultimamente não tenho dado muita atenção a futebol, principalmente depois que o Santos FC “pisou no freio” e o Campeonato Brasileiro começou a ficar meio esquisito.
E por falar em “pisar no freio”: Fórmula 1, então, desde aquela palhaçada da Ferrari no GP da Alemanha, quando a equipe constrangeu Felipe Massa a deixar Fernando Alonso passar - com direito a “ridiculous!” por rádio e tudo o mais -, parei de ver.
Massa, aliás, não teve muita sorte esportiva desde que entrou na escuderia italiana:
Em 2008, foi prejudicado pela equipe em duas corridas “ganhas” e, na última, perdeu o título para Hamilton, que ultrapassou Timo Glock na última curva. Já em 2009, graças a uma porca de Rubinho, quase foi desta para uma melhor equipe, onde, com certeza, o Chefe jamais o mandaria dar passagem para um “primeiro piloto”, pois todos são iguais perante Ele.
Este, principalmente depois do GP alemão, Massa desandou. Quando à Barrichello: nunca andou e, para completar, a equipe de di Grassi foi uma desgraça e a de Bruno Sena não ficou muito atrás. Por sinal, as duas é que ficaram muito atrás. Que tristeza!
Este domingo, no entanto, eu fiz questão absoluta de assistir o GP de Abu Dhabi, por algumas razões bastante significativas:
A primeira foi porque raras vezes, nas últimas décadas, um campeonato chegou ao derradeiro GP com quatro pilotos disputando o título. A segunda, porque soube que o dono da RBR, depois daquela coisa vergonhosa da Ferrari, proibira o chefe de sua equipe de fazer qualquer tipo de distinção entre seus pilotos. E a terceira, porque eu estava num entusiasmo só para torcer, com todas as minhas forças, para Alonso não ser campeão! Ainda mais depois das declarações arrogantes – o que não é nenhuma novidade - que ele dera no sábado, praticamente se julgando tri-campeão.
Ninguém nega as qualidades do piloto espanhol, mas ele é uma das figuras mais desagradáveis que esse esporte teve nos últimos tempos.
Torcer para quem, então?
Hamilton? Não, pois ainda não digeri aquele campeonato de 2008, sobre Massa.
Webber? Bem, ele se julgava primeiro piloto da RBR e andava reclamando muito de Vettel apenas porque ele estava subvertendo essa “ordem das coisas” dentro da pista, ou seja, por seu próprio mérito e arrojo!
Ora, escolha natural: Vettel! E o garoto de apenas 23 anos não decepcionou: mandou ver desde o início!
Para melhorar mais ainda, a corrida teve atuações soberbas de Kubica e seu companheiro de Renault, Petrov – que tem vitalidade até no pré-nome, Vitaly – não deu nenhuma chance de ultrapassagem para Alonso. E com classe!
Aí, para manter a fama de ridículo, ao final da corrida o espanhol emparelhou com o russo para fazer gestos desaforados.
O que ele queria? Que mandassem Petrov dar passagem para ele, mesmo sem ser retardatário? Será que na cabeça desse indivíduo todo mundo que está na frente dele é segundo piloto, ainda que não seja de sua equipe?
Bem fez o russo, que retribui com um sinal do tipo: “vai ver se eu estou na curva...”!
Assim, nesse domingo voltei a ter prazer em ver um GP de Fórmula 1, pois a corrida foi bem disputada e o resultado foi honesto, como sempre deveria ser! Além disso, um recorde foi batido: Vettel passou a ser o mais jovem campeão da história!
Valeu Sebastião, quer dizer, Sebastian!
ANJOS E DEMÔNIOS
Não, este texto
nada tem a ver com o livro de Dan Brown! Mas tem muito com o cotidiano, com a
vida que tentamos construir e levar, como os sonhos e pesadelos que sonhamos ou
nos fazem sonhar, dormindo ou acordados.
Todo dia saímos à
rua, para buscar o futuro, esquecer o passado – corrigir seus erros, se possível
– ou, simplesmente, viver o presente. É a uma etapa em nossa jornada que,
sabemos, tem começo, meio e fim, e na qual tentamos contribuir com alguma coisa,
e não ser apenas espectadores passivos ou massa de manobra dos desejos
alheios.
Não é fácil
viver, por mais que nos esforcemos para tanto. Queremos apenas plantar e colher
o fruto de nosso trabalho, regado com nossa esperança. Estudamos, aprendemos e
nos aplicamos para isso, acreditando que crer é suficiente, mesmo sabendo que
nossos esforços nem sempre bastam para enfrentar as forças adversas, muitas
delas invisíveis, que se apresentam no caminho.
Qual seria o
sentido da vida se não acreditássemos nisso? O que nos restaria de humano e
divino se simplesmente aceitássemos seguir sem ter nenhum controle sobre o rumo?
Com tantas
interferências, nossa caminhada pode estar cheia de perigos e ameaças, nem
sempre identificáveis, e que às vezes vêm de onde menos ou nunca se
espera!
Como as
incertezas podem ser bem maiores do que as certezas, pedimos, rezamos e oramos
por proteção divina, para que sejamos livres de todos os males. E mesmo quem não
pede esse tipo de proteção já deve ter sentido que teve algum tipo de proteção,
ou que sofreu algum mal cujo motivo era inexplicável.
Crendo ou não, há
muito mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia,
já dizia Shakespeare. Isso vale para a Dinamarca, como para qualquer ambiente:
escola, trabalho, grupo social, etc.
De onde vem o
divino bem que nos protege do mal que não vemos? De Deus, sem dúvida! Mas Ele
tem seus anjos, alguns dos quais conhecidos como anjos da guarda. Muitas vezes
eles são de carne e osso e exercem o bem ao evitarem que um mal seja perpetrado
contra inocentes, sem que eles saibam quem o articulara. Sua bondade é tão
grande que também alivia o ônus moral e espiritual do maldoso, embora a maioria
destes seja imoral e alguns até se usem o nome de Deus para legitimarem suas
maldades físicas ou psicológicas.
Esses últimos são
os demônios de plantão, em grande parte também humanos, ao menos na forma
orgânica. Eles não precisam possuir corpos para lhes fazerem mal: basta terem
poder externo sobre suas vidas. E o poder nas mãos erradas, sejam elas:
incompetentes, temerárias, orgulhosas, desmioladas ou sádicas pode gerar muito
mal, às vezes travestido de boas intenções, daquelas de que o inferno está
cheio, junto com os bem-intencionados que as tiveram.
Esses anjos da
guarda e demônios de plantão estão em toda parte, travando uma luta diária por
nossas almas: os primeiros sem nada pedir, os últimos tirando tudo o que podem,
mesmo que não precisem. Uns zelando por nosso bem, outros perseguindo e
destruindo, por estupidez ou prazer, transferindo suas culpas, erros e baixeza
para o objeto de sua maldade e ainda alardeando que estão pensando num bem
maior.
Hitler e Stálin
provavelmente pensavam assim...
A nós, pobres
mortais, resta continuar acreditando que podemos, com fé em Deus, remover os
obstáculos que os demônios de plantão, infelizmente cada vez mais poderosos,
motivados, dissimulados e bem organizados nos impõem; e agradecer a doce atenção
e perseverança obstinada dos anjos da guarda que, contra todas as tendências e
facilidades oferecidas pelo mal, persistem em nos proteger.
Que Deus os
abençoe! E a nós também.
MEMÓRIAS DO RÁDIO ESPORTIVO
Comecei a acompanhar narrações esportivas mais atentamente por volta dos 11 anos de idade, no início da década de 1970.
O tipo de narração era mais ou menos padrão: um speaker de voz poderosa e rápida, estilo turfe; um comentarista de voz lenta e doutoral; e um ou dois repórteres de campo, além do plantão esportivo, que informava resultados de outros jogos.
Em Santos, eu costumava escutar a Rádio Atlântica, cujo narrador era Walter Dias, com comentários de Jorge Shammas e reportagens de João Carlos, o corisco dos repórteres. É verdade que várias vezes a torcida já estava gritando gol e o narrador ainda estava no meio de campo. Lembrando disso, me veio à mente o impagável esquete do narrador de futebol gago, imortalizado por Zé Vasconcellos...
Quando o Santos FC jogava clássicos, no entanto, eu preferia ouvir a Rádio Nacional de São Paulo, que tinha Pedro Luiz, Mário Moraes, Juarez Suares e Roberto Carmona.
Aí, um dia, eu passeava pelo dial do rádio de pilha quando descobri a Jovem Pan.
O estilo narrativo era irresistível, a começar por Osmar Santos, que reinventou a transmissão esportiva, trazendo a ?firula? do campo para a voz. Não foi à toa que passou a ser chamando de Pai da Matéria.
Os outros narradores da Pan eram apenas José Silvério e Edemar Anusek! Os comentaristas também eram supimpas: Orlando Duarte e Cláudio Carsughi, com seu sotaque italiano indefectível, ainda mais preciso quando acompanhava o Velho Barão, Wilson Fittipaldi, nas corridas de Fórmula 1, nos tempos de Emerson, Wilsinho e José Carlos Moco Pace. No campo, desfilavam Fausto Silva (o Faustão) e Wanderley Nogueira; equipe que teve, mais tarde, o aporte de um jovem cabeção de Muzambinho: um tal Milton Neves... Mas, o que mais me surpreendeu foi o que veio depois do futebol e antes do Terceiro Tempo, que na época era um noticiário geral, de fim de domingo da emissora. O nome desse programa resumia com absoluta perfeição o que ele era: Show de Rádio. Seus protagonistas: Estevam Sangirardi, Nelson Tatá Alexandre, Carlos Roberto Escova, Odayr Batista e, algum tempo depois, Serginho Leite. Eles personificavam personagens hilários, que representavam, entre outros, cada time grande de São Paulo: o Palmeiras tinha a Nona, o Fumagalli e o cachorro Vardema Fiúme; o Corinthians tinha o Zoca Zifio, o Pai Jaú e a Nega; o São Paulo tinha o Lorde Didu Morumbi e seu mordomo corintiano, sistematicamente assim chamado: - Archibald! Archibáaáaáaáald!; e o Santos tinha dois portuários: o Zé das Docas e o Lança-Chamas, este invariavelmente bebaço e, entre um cochilo e outro, perguntando: - O Santos joga hoje?
Os domingos e quartas-feiras terminavam mais felizes, e eu, ainda menino, tinha a ilusão da eternidade das coisas boas... Até que a Rádio Globo de São Paulo, sucessora da Nacional, resolveu contratar Osmar Santos e, de quebra, levou Faustão, Tatá e Escova, provocando o que foi uma das maiores disputas entre emissoras da época, com direito a editoriais e acusações de assédio.
Osmar Santos, que vivia a dizer para os jogadores mascarados: Desce daí! Desce daí, que você não ta com essa bola toda!, virou o Pai do merchandising, mandando tanto Oi, fulano! Oi, sicrano!; que a torcida já estava gritando gol, quando ele se tocava que tinha um jogo em andamento. Na nova casa foi criado o Largo da Matriz, programa nos moldes do Show de Rádio e, logo em seguida, Faustão, Tatá e Escova começaram a apresentar a primeira versão do caótico Perdidos na Noite, na TV Gazeta, que depois foi para a Band e, mais adiante, o então gordinho (Ô loco, meu!) foi sozinho para perpetrar o Domingão do Faustão, na Globo.
As transmissões esportivas radiofônicas voltaram a ficar resumidas aos jogos, plantões esportivos e programas muito parecidos entre si, cujo diferencial único estava num narrador ou comentarista mais espirituoso.
Ainda bem que existe o Na Geral, da Rádio Bandeirantes, que conta com um gênio Beto Hora. É impressionante como ele consegue interpretar três personagens brigando entre si, ao mesmo tempo! Mudar de um tipo para outro, entre dezenas, sem perder o rumo! E ainda dar opiniões sérias por esses alteregos.
Esse é um dos muitos fascínios do rádio, talvez o maior deles, só comparável à leitura: mexer com nossa imaginação!
Por essas e por outras é que, em suas múltiplas e dinâmicas facetas, o rádio vive em constante processo de reinvenção de si próprio e, quando bem utilizado: informa, entretém, educa e também sabe ouvir.
Adilson Luiz Gonçalves
Mestre em Educação
Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor
Feliz da vida
Pedro
Coimbra
ppadua@navinet.com.br
No
Skina 22 eu conversava com “Zorongo” que foi um dos primeiros a
rumar para São Paulo na década de 60. Jovens que mal
haviam terminado o Tiro de Guerra viraram bancários de uma
hora para a outra.
“Morávamos
num casarão, o ´Ninho das Águias`, em Moema”,
contava Mário “Zorongo” e lembrava-se de uma casinha,
parede e meia, onde morava um casalzinho. Aos sábados a moçada
não trabalhava e a mulher se exibia, vestindo um shortinho
muito curto e cavado que deixava todos alucinados.
“Ela
ouvia, ´Que queres tu de mim`, com Altemar Dutra”, lembrava
Mário. “Que queres tu de mim/Que fazes junto a mim/Se tudo
está perdido, amor”, e ele deixava os boêmios
estupefatos enquanto fazia melodrama e dizia que Evaldo Gouveia e
Jair Amorim eram gênios.
“Minha
mãe me enviou uma carta dizendo que meu pai fora preso pelos
milicos. Depois foi inocentado por um coronel em Juiz de Fora, mas já
perdera seu emprego público. Foi então que me demitiram
do banco”, contava “Zorongo”.
“Voltou
para casa?”, perguntei interessado naquela história.
“Zorongo”
pediu mais uma caipirinha e mais uma Brahma antes de responder.
“Que
nada! A casa caíra de vez. Meu velho saía bem cedinho,
com uma pasta de couro na mão, como se fosse trabalhar na sua
repartição e sentava-se numa mesa no Bar Pinguim. Bebia
cachaça com groselha o dia inteiro e voltava cambaleando. Sua
história de vida acabou. Morreu de cirrose”, contava com os
olhos cheios d água.
Muito
tempo depois Mário “Zorongo” foi para Belo Horizonte
procurar trabalho até que encontrou Antonieta, uma morena que
não era bonita, mas tinha pernas compridas, lindas. O pai dela
era gerente de uma empresa de mineração e arranjou
emprego para o genro na mesa de open market de um banco.
“Verdadeiramente
só pensava em voltar para cá por que detestava Beagá.
Um dia fui para a rodoviária e peguei o primeiro ônibus.
Deixei para trás um amor e um bom emprego. Tinha idéias
impossíveis de realizar com meu pequeno capital. E ouvia os
versos da música cantada por Altemar Dutra: ´Não
sei o que pedir/ Se tudo o que desejo é paz/Que culpa tenho
eu/ Se tudo se perdeu...”, cantarolava Mário “Zorongo”.
Devorávamos
um “Frango à Passarinho” enquanto ele dizia que um dia
encontrou em sua casa uma maquina de escrever Olivetti Lettera.
“Naquele
momento tive mais do que uma inspiração, uma
iluminação! As pequenas cidades não possuíam
jornais impressos. Não havia notícias locais.
Lembrei-me de um conhecido dono de uma gráfica em Juiz de
Fora. Fiz lá o número zero de um jornal modelo e saí
vendendo a idéia. Em pouco tempo eram mais de cinqüenta
locailidades e eu trabalhava até alta madrugada na redação
e depois levava para imprimir”, ele me dizia olhando o movimento
das mocinhas que passavam pela rua.
“Não
sei o que pedir/ Se tudo o que desejo é paz/ Que culpa tenho
eu/ Se tudo se perdeu”, falava Mário “Zorongo’. “De
repente cansei de tudo aquilo e viajei para São Paulo. O
`Ninho das Águias` tinha sido demolido e em seu lugar ergueram
um enorme prédio residencial. A casinha da moça de
shortinho também desaparecera. A maior parte dos que haviam
imigrado para lá voltara para casa. Todos, menos um, que
morrera num incêndio, do Joelma ou do Andraus, não me
lembro. Ouvia a música no ar. E eu estava ali e feliz da vida,
pois ela é feita de momentos...E tenho uma bela história
para contar ao lado de Antonieta, a mulher de lindas pernas”, disse
e cochilou por entre copos, maços de cigarros e garrafas
vazias...
Poesia
PRIMAVERA III
Primavera das estações é a mais bela,
Com teu olhar extremamente lindo,
Com teu sorriso, nunca esquecido,
Que nunca foi, e não será fingido.
Quando chega setembro...
Já começo a te esperar.
Pois sei que é nesse mês que voltas,
Voltas a nos encantar!
Não só com a beleza que trazes para a terra,
Como também para o mar.
Com teus jardins floridos,
Aqui ou, em outro lugar.
Os mesmos com o teu perfume,
Começam a nos deslumbrar.
Mostrando que na verdade...
Igual a ti outra não há...
Vivaldo Terres
sábado, 24 de setembro de 2011
GENTE POBRE: O Primeiro Clássico de Dostoievski

“Gente Pobre”, Primeiro Romance de Dostoievski
A marca do gênio já no nascedouro literário
A marca do gênio já no nascedouro literário
Silas Correa Leite
"Gente Pobre" é o romance de estreia de toda a importante obra literária de Dostoievski, e que o revelou de imediato como escritor de grande futuro, inaugurando um estilo introspectivo-psicológico sem igual até o seu tempo histórico.
“A vontade de escrever é tão forte quanto a aversão pelas palavras.
Odiamos as palavras porque demasiadas vezes encobrem o vazio
e a vileza. Desprezam as palavras porque empalidecem diante da emoção
que nos atormenta. E, no entanto, outrora, a palavra significava dignidade
humana e era o melhor bem do homem – um instrumento de comunicação
entre pessoas” - Gustaw Jarecka
O romance Gente Pobre, escrito quando Fiodor Dostoievski tinha apenas 25 anos, é um poderoso livro de crônica social e entreditos, marco de um início que seria uma carreira literária retumbante. Duas personagens centrais, um humilde funcionário público e uma costureira que trocam correspondências entre si. “Jovem Dostoieviski: a síntese da arte e da verdade” (Bielinsk). Uma caracterização da pobreza à moda russa, daqueles tempos tenebrosos muitas vezes depois retratados com outras tantas tintas. Em São Petersburgo, os problemas diários relacionados com a habitação, a comida e o vestuário, e todo o sombrio entorno decorrente clarificado na obra marcada. O frio e a frieza de uma sociedade que ignora os pobres. Crítica social contundente, comendo pelas beiradas narrativas. Segundo alguns historiadores, uma das obras que mandou o autor para a cadeia siberiana.
Obra aparentemente sentimental, num entender primário que seja, em narrativa que propositalmente parece ser de simples crônicas, feito trocas de cartas (sentimentos, sonhadores, gente pobre; tristezas retratadas com primor), entre Makar Aleksieivitch, servidor público, e Varvara Aleksieievna, órfã desonrada – mais o subsolo da vida, inflexões, inquietações; a intimidade sagrada da penúria compartilhada. O miniobscuro retratado por miseráveis anônimos, essa gente miúda, anômalos, entre minitristezas, desavessos, a quase ralé no subúrbio de uma São Petersburgo. Cartas-janelas abertas entre escombros de sombras, zombarias, desprezos, toda uma obscuridade material. A agudeza de percepção já então determinante.
Gente Pobre é o inicio do ciclo literário geral de Fiodor Dostoievski (Noites Brancas, Os Irmãos Karamazov, 1879), o maior escritor do mundo de todos os tempos. Eram os 25 anos de um gênio então já se apurando na escrita, despertando assim, para sentir seu tempo e as humilhações da época, desesperos; um olhar sobre todas as coisas da sofrida gente. E ainda as citações: O russo, o mais rico dos dialetos eslavos, porque se conhece sua origem (Mikhail Lomonorov), “a riqueza, a expressividade e a concisão do latim e do grego”. As anotações do exímio e cult tradutor Luis Avelima (que também é poeta, escritor, jornalista e já traduziu François Villon, Henri Lefebre, Aristófanos, Mikhail Bulganov) à guisa de apresentação, enriquecem em muito o historial datado da obra, agora em primorosa nova edição (lançamento comentado por Manuel da Costa Pinto na Revista São Paulo, da "Folha de São Paulo") da Editora LetraSelvagem.
A “alma” das dores reinantes. A “alma” dos medos. A “alma” das inquietudes. A humanidade de seu tempo caprichosamente retratada desde a repartição pública viciada, à espelunca encardida frente a uma humilhação sobrevivencial. Vítimas preenchendo espaços do cenário literal. Gente Pobre é o retrato dessa gente humilde que nutre as injustas sociedades e são a verdadeira “alma humana” delas todas, de todos os vieses, tempos e ideologias multifacetadas. O humanismo possível? “Apesar de tudo, é verdade que tais homens (...), homens de peso, só existem na Rússia(..) Têm a verdade de seu lado, e esta e o bem triunfarão sempre sobre o vicio e a maldade” (Nascimento de um Escritor/1877, Diário de um Escritor, Dostoievski).
É claro que não seria um livro com o feitio criacional de Fiodor Dostoievski se uma carga psicológica - implícita ou não - não carregasse as tintas das personagens retratadas com especificidades contundentes, onde os seus passados pessoais se misturam com os seus feitios e reações, sequelas até. Frederico García Lorca já tinha se manifestado sobre o maior escritor do mundo depois reconhecido: “O insigne escritor russo, Fiodor Dostoievski, foi muito mais pai da revolução russa do que Lênin”.
Gente Pobre é o romance de estreia de toda a importante obra literária de Dostoievski, e que o revelou de imediato como escritor de grande futuro, inaugurando um estilo introspectivo-psicológico sem igual até o seu tempo histórico. Baseado na correspondência entre duas pessoas extremamente pobres que se amam numa relação terna mas infrutífera, sem perspectiva de consumação, um platônico de beijar paredes, para lembrar Clarice Lispector. Triste narrativa pungente da condição humana em torno desses dois personagens, como vítimas de fatalidades da vida numa sociedade onde poucos conseguem realmente sair do ramerão, e onde muitos se movem numa crueldade austera entre si, forçadas pelas inóspitas condições em que vivem. Makar e Varenka vivem um amor idílico ensombrado pelo que os circunda (Makar é muito mais velho que Varenka), agravando as suas próprias condições a um nível desesperador e quase doentio, mas sempre com alguma perspectiva de esperança fundadas em ilusões muitas das vezes patéticas, algo falsamente ingênuas, ilustrativas, no entanto, ao alcance do coração humano que tudo pode sonhar, sem se importar com as verdadeiras condições em que se encontra, principalmente nessas condições por assim dizer desprezíveis. A percepção no delinear a realidade que então sentia, pensava e proseava sobre. Aguda consciência de seu tempo percorre as narrativas trocadas...
O retrato social das camadas pobres de São Petersburgo em meados do século XIX, numa sociedade agonizante em que até os diferenciados sobrevivem em condições de penúria, então retratados de forma realista com episódios e personagens reveladoras dos desesperados e dos sem recurso, quase párias. E você vendo esses tempos atuais repetindo o passado, com quadros de dramas sociais e individuais, mais as vítimas de burocracias, desgraças várias, e também o egoísmo ou despotismo, próprios do ser humano pouco ser e ainda muito pouco humanus. Nada mudou. Nada mudará? O que foi será de novo, o que foi erração continua sendo, e o devir ainda é sombrio como as noites da Rússia de antigamente. A sustentação da narrativa do autor, situação de questionamento tácito, compreender quase o invisível... nas arestas do sobreviver de cada parte evocada em situação de penúria existencial. Próprio de gênio.
Dostoievski: a sentença de ser grande desde o começo. O preço de. A sina de ser genial. O destino de ser considerado para muitos o maior escritor do mundo, um mito que, já em Gente Pobre, vai revelando o artista comprometido com a causa humana: de retratar a sobrevivência possível, a alma humana respirando as sofrências pela perspectiva da esperança como inteligência da vida. Dostoievski compreendeu mais a alma humana do que a própria alma humana compreendia a si mesma. Escrever, criar, revela a nossa própria alma, disse Demétrio. Com Dostoievski a lucidez então emergente no achadouro de entender as essências do subviver, a flor da consciência, o território da contemplação, restaurando nos quadros narrativos a própria busca da dignidade humana. O dialogo entre pobres seres solitários, na miserabilidade pungente de vidas efêmeras, entregues... a consciência da incompletude e a ciência que não há final feliz no dezelo humano...
Acima de toda a desgraça e pobreza adjacentes, sobrepõem-se as poucas alegrias que justificam a existência e todas as mágoas dela decorrentes, quando momentos sonhados aparecem lampejos cruciais de que os outros não são assim tão maus quanto parecem, tentam sobreviver com as amarras decorrentes do custo de estarem vivos. A história de amor não acaba de forma feliz nem infeliz. Não há felicidade ou infelicidade, e sim de uma forma realista que dá ainda mais valor ao romance, com amor e momentos sublimes de pura emoção descritos de forma única, como se não terminasse, sim, talvez até se prolongue através dos tempos, com as vítimas da realidade e dos acontecimentos que forçam os destinos e acabam destemperando momentos e artes, fugas e desencontros, incompletudes e impropriedades. A realidade da vida retratada com maestria e a sabedoria de ter um olhar que paira sobre a triste condição humana, desde esses remotos tempos.
Em resumo: a história que se passa num dos bairros miseráveis de São Petersburgo, onde um funcionário de meia-idade vai trocando correspondência com uma jovem costureira que é na realidade a sua vizinha admirável, parece simples assim, triste assim, resgatadora enfim, mas traz o humanismo de coragem, a esperança sustentadora, o retrato de ser simples com contundência. Sim, pobres para se casarem, o amor passa todo por estas cartas onde contam um ao outro os pequenos acontecimentos do dia-a-dia, e onde relatam as suas vidas sofridas, refletindo individualidades quase insignificantes pela miséria, como cartas marcadas de um jogo perdido, como a própria história que é remorso, e que retrata sim, essa GENTE POBRE, que só sobrevive quando uma alma criativa se debruça sobre ela, retratando, dando prismas cênicos, fazendo chorar, tocando corações e mentes, debulhando um ramalhete doloroso de lágrimas e feições humanas, até porque, afinal, por triste que seja, ao término da leitura do clássico Gente Pobre, você fica com um sentido vazio, um gosto de quero mais, de idílio interrompido, uma tristice pegajenta, um cismar amargo, compreendendo que, sim, em toda vida-livro-aberto, há o imponderável “final feliz” em que todos morrem.
A arte vale a vida, o sentido da vida? Nesse caso, ficou a obra inaugural, um marco, feito o autor depois reconhecido mundialmente e consagrado, e ainda o inevitável e triste retrato da penúria de seres que se entrelaçam mas não se consagram, e nem na verdade consumem o amor que é mesmo sempre por isso quase por um triz.
Silas Correa Leite – E-mail: poesilas@terra.com.br
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