quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A Feira

Há uns quinze anos, ou mais, quando eu tinha meus nove, dez anos de idade, a feira de rua - nome que se dá ao comércio de frutas, verduras, mel, caldo de cana - chegava até a porta da minha casa.
Chegava e passava até a esquina. A Rua Correia de Oliveira, nossa rua, era conhecida como “feira da batata”, pois ficavam as calçadas, aos sábados, repletas delas.
O curioso é que o que mais me atraía a atenção era a sexta á noite. Quando de tardezinha as toldas de madeira escura e magrinhas começavam a serem montadas. A aventura tinha inicio às cinco da tarde, de forma que depois da janta a rua estava, de um lado e de outro, tomada por bancas.
Aquilo me fascinava, andar pelo corredor que elas faziam me confundia os afetos, quer sentindo medo, típico de menina pequena, pelo escuro e deserto que a rua ficava; quer me causando ansiedade, por tentar imaginar o que continha debaixo daquelas lonas pretas. Decerto que tinham frutas, mas parece que as sextas à noite eu esquecia, queria era tirar aquele plástico grosso e constatar com as mãos o que a razão já sabia.
Mas era uma garotinha comportada e só fiquei a olhar. Faz uns anos que não presencio a sexta à noite em minha cidade primeira, é a faculdade, o estágio, e os tantos compromissos que a gente passa a ter quando cresce. Já se foram cinco anos com pouquíssimas sextas-feiras à noite, nem sábados de feira.
Uma noite dessas minha mãe ligou e disse que estavam reformando a praça da matriz, que a feira tinha deixado a nossa rua. Saiu sem me contar o que aquelas toldas escondiam debaixo daquelas lonas pretas. A “feira da batata” deixou de nos acordar cedinho com seu zum zum zum. Foi embora carregada de lembranças, de sábados, de fantasia de menina, de passado.
Foi embora pra outra rua, onde não tem casas, onde ninguém mora. Deixou a Correia de Oliveira clara, limpa, silenciosa, porém, solitária. Muito sozinha, principalmente as sextas à noite. Que pena.

SAPINHO








Montagens gif








Constatação


Rembrandt



CONSTATAÇÃO



Os mortos estão mortos
e os vivos estão para morrer

A vida corre pelos corredores
e todos vãos abertos estão
para a veia e a cova
somos tudo nada
somos nada tudo
em vão
sim e não
absolutamente
grão
fome e pão
somos não
Infinitamente
chão


Hideraldo Montenegro:
http://hideraldo.montenegro.zip.net/arch2008-11-02_2008-11-08.html

Despedida




DESPEDIDA


Não me esperem para o jantar
Não me esperem nas esquinas
Não sejam bestas em me esperar
Sigam em frente
Escovem os pés penteiem os dentes
Façam a festa
Cantem dancem
e soltem todos os seus fantasmas
de mim
e velas não precisam acender

Digam apenas adeus
e me deixem em paz
que daqui não saio mais

-Afinal, este meu silêncio
não é convincente?

Hideraldo Montenegro:
http://hideraldo.montenegro.zip.net/

Trincheira


David - Michelângelo


TRINCHEIRA



Que venham as cegonhas
Que venham os abraços abertos
Que venha o sorriso leve fixo certo
Que venham as mentiras as verdades e as vergonhas
Que venham o vôo e o pouso e os netos
Que venham todos os aeroportos
Que venham e passem todos
que preciso continuar em campo aberto
vivo ou morto




Hideraldo Montenegro
http://hideraldo.montenegro.zip.net/

sábado, 27 de dezembro de 2008

PERSPECTIVAS PARA UM MUNDO NOVO




* Eduardo Antunovic

No trimestre final de 2008, a crise econômica se sobrepôs à temática ambiental na escala de prioridades das empresas e dos meios de comunicação. Sobreviver à redução do crédito e à estagnação que tomam de assalto os países ricos impõe um debate urgente e necessário. Nem por isso, entretanto, podemos deixar em segundo plano a busca por um caminho que permita compatibilizar geração de riquezas com equilíbrio ambiental.
Escrevo este artigo no último dia da 14ª Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Póznan, Polônia. Acompanho as notícias do Brasil e descubro que o nosso foi apenas um dentre 189 países participantes. Durante dez dias, especialistas e representantes governamentais – o nosso era Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente – discutiram o combate ao desmatamento, a permuta de tecnologia e o financiamento de ações ambientalmente corretas. O objetivo é formatar um acordo capaz de substituir o Protocolo de Quioto, que expira em 2012. Não é fácil conciliar interesses divergentes, mas a próxima rodada de discussões só acontecerá dentro de um ano, na Dinamarca.
Firmado em 1997, o Protocolo de Quioto determina que as nações industrializadas devem reduzir, até 2012, cerca de 5% das emissões de gases de efeito-estufa em relação aos níveis registrados em 1990. Países emergentes como o Brasil estão desobrigados de cumprir metas e podem beneficiar-se com a comercialização de créditos de carbono. Assim, as empresas brasileiras que reduzirem suas emissões de CO2 – pela substituição da matriz energética fóssil por uma fonte limpa e renovável, por exemplo – podem submeter seus projetos ao Ministério da Ciência e Tecnologia e pleitear a aquisição de créditos de carbono junto a um conselho internacional de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).
Os resultados de um projeto dependem de auditoria externa credenciada para se tornarem válidos e os créditos dele decorrentes podem ser negociados em bolsas de carbono, em modelo similar ao adotado pelas bolsas de valores. No ano de 2007, o mercado de carbono movimentou 30 bilhões de reais ao redor do mundo. A possibilidade de comercializar créditos de carbono não é o único estímulo para as empresas brasileiras investirem em MDL. No Brasil e no mundo, os consumidores estão cada vez mais atentos à ética ambiental de seus fornecedores. A tendência é que as organizações não-alinhadas às normas ambientais sejam “engolidas” pelo mercado.
O Plano Nacional Sobre Mudança do Clima (PNMC–Brasil), disponibilizado pelo Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima do Governo Federal no início de dezembro, contém um inventário das emissões de gases de efeito-estufa, sobretudo o dióxido de carbono, o óxido nitroso, o metano e os hidrocarbonetos. Elaborado especialmente para a apresentação brasileira na Conferência de Póznan, o PNMC revela, dentre outros dados, que as indústrias são responsáveis por apenas 9% do total de emissões de CO2, por 1% das relativas ao gás metano e 4% de óxido nitroso.
Porém, mesmo sem ser o “vilão do meio ambiente” de outrora, quando estava associado às fumaças escuras das chaminés e à contaminação dos rios, o setor manufatureiro é fortemente pressionado pela opinião pública e os órgãos fiscalizadores. Ao mesmo tempo, as fábricas estão cada vez mais empenhadas em minimizar os impactos ambientais de suas atividades.
Além disso, o respeito ao meio ambiente está intrinsecamente ligado à responsabilidade social. Cada vez mais distante da obsoleta prática filantropia convencional, esse conceito tornou-se sinônimo de gestão ética e transparente, com foco no desenvolvimento sustentável, na preservação dos recursos naturais e culturais para as gerações futuras, no respeito à diversidade e na mitigação das desigualdades.
Atender às necessidades desse novo mundo não é tarefa simples. Para o executivo, significa estar atento aos novos anseios da sociedade e possuir visão estratégica de longo prazo. Somente assim ele será capaz de converter as exigências em oportunidades e de contribuir efetivamente para a criação de uma nova identidade empresarial, em que a sustentabilidade tenha ligação intrínseca com as áreas estratégica, operacional, financeira e comercial.

* Eduardo Antunovic é diretor-geral da CTPartners na América Latina.

PERSPECTIVAS PARA UM MUNDO NOVO




* Eduardo Antunovic

No trimestre final de 2008, a crise econômica se sobrepôs à temática ambiental na escala de prioridades das empresas e dos meios de comunicação. Sobreviver à redução do crédito e à estagnação que tomam de assalto os países ricos impõe um debate urgente e necessário. Nem por isso, entretanto, podemos deixar em segundo plano a busca por um caminho que permita compatibilizar geração de riquezas com equilíbrio ambiental.
Escrevo este artigo no último dia da 14ª Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Póznan, Polônia. Acompanho as notícias do Brasil e descubro que o nosso foi apenas um dentre 189 países participantes. Durante dez dias, especialistas e representantes governamentais – o nosso era Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente – discutiram o combate ao desmatamento, a permuta de tecnologia e o financiamento de ações ambientalmente corretas. O objetivo é formatar um acordo capaz de substituir o Protocolo de Quioto, que expira em 2012. Não é fácil conciliar interesses divergentes, mas a próxima rodada de discussões só acontecerá dentro de um ano, na Dinamarca.
Firmado em 1997, o Protocolo de Quioto determina que as nações industrializadas devem reduzir, até 2012, cerca de 5% das emissões de gases de efeito-estufa em relação aos níveis registrados em 1990. Países emergentes como o Brasil estão desobrigados de cumprir metas e podem beneficiar-se com a comercialização de créditos de carbono. Assim, as empresas brasileiras que reduzirem suas emissões de CO2 – pela substituição da matriz energética fóssil por uma fonte limpa e renovável, por exemplo – podem submeter seus projetos ao Ministério da Ciência e Tecnologia e pleitear a aquisição de créditos de carbono junto a um conselho internacional de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).
Os resultados de um projeto dependem de auditoria externa credenciada para se tornarem válidos e os créditos dele decorrentes podem ser negociados em bolsas de carbono, em modelo similar ao adotado pelas bolsas de valores. No ano de 2007, o mercado de carbono movimentou 30 bilhões de reais ao redor do mundo. A possibilidade de comercializar créditos de carbono não é o único estímulo para as empresas brasileiras investirem em MDL. No Brasil e no mundo, os consumidores estão cada vez mais atentos à ética ambiental de seus fornecedores. A tendência é que as organizações não-alinhadas às normas ambientais sejam “engolidas” pelo mercado.
O Plano Nacional Sobre Mudança do Clima (PNMC–Brasil), disponibilizado pelo Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima do Governo Federal no início de dezembro, contém um inventário das emissões de gases de efeito-estufa, sobretudo o dióxido de carbono, o óxido nitroso, o metano e os hidrocarbonetos. Elaborado especialmente para a apresentação brasileira na Conferência de Póznan, o PNMC revela, dentre outros dados, que as indústrias são responsáveis por apenas 9% do total de emissões de CO2, por 1% das relativas ao gás metano e 4% de óxido nitroso.
Porém, mesmo sem ser o “vilão do meio ambiente” de outrora, quando estava associado às fumaças escuras das chaminés e à contaminação dos rios, o setor manufatureiro é fortemente pressionado pela opinião pública e os órgãos fiscalizadores. Ao mesmo tempo, as fábricas estão cada vez mais empenhadas em minimizar os impactos ambientais de suas atividades.
Além disso, o respeito ao meio ambiente está intrinsecamente ligado à responsabilidade social. Cada vez mais distante da obsoleta prática filantropia convencional, esse conceito tornou-se sinônimo de gestão ética e transparente, com foco no desenvolvimento sustentável, na preservação dos recursos naturais e culturais para as gerações futuras, no respeito à diversidade e na mitigação das desigualdades.
Atender às necessidades desse novo mundo não é tarefa simples. Para o executivo, significa estar atento aos novos anseios da sociedade e possuir visão estratégica de longo prazo. Somente assim ele será capaz de converter as exigências em oportunidades e de contribuir efetivamente para a criação de uma nova identidade empresarial, em que a sustentabilidade tenha ligação intrínseca com as áreas estratégica, operacional, financeira e comercial.

* Eduardo Antunovic é diretor-geral da CTPartners na América Latina.

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