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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Superação



Pedro Coimbra
ppadua@navinet


            Desde garoto me tornei reconhecido como um “manteiga derretida”, um chorão, que deixava extravasar suas emoções mais intimas a qualquer momento.
            E também a constatação de ser um individuo sedentário, que se movimentava pouco, numa adolescência no Instituto Gammon, onde a visão que se tinha era de jovens se movimentando a todos os momentos para algum lugar ou lugar nenhum.
            E a bem da verdade morava no meu corpo um DNA não vislumbrado que fez com que meus filhos, Rodrigo e Ricardo, fossem notáveis jogadores de basquetebol.
            Com o passar dos anos passei a disfarçar estas atitudes sentimentais ou sentimentalóides, mas  constatei recentemente que o episódio de abertura de um grande evento como as Olimpíadas ainda me faz ficar emocionado.
            Pelo menos naqueles fugidios momentos, parece que somos todos irmãos, congregados na prática do bem, da solidariedade e amizade entre os povos.
            A origem dos jogos desportivos se perde na História da Civilização e eles se firmam na Grécia Antiga e em Roma como uma prática do Ser Humano para superar a si mesmo e realizar nosso sonho maior de nos igualarmos aos deuses.
Os Jogos Olímpicos Moderno surgem em Atenas, pela ação do francês Pierre de Fredy, conhecido com o barão de Coubertin e cada vez mais estão distanciados dos seus propósitos iniciais de união dos povos e raças.
Hoje são dominados pelos interesses comerciais dos grandes grupos econômicos e pelo poder da mídia e quase ninguém presta atenção ao lema "Citius, altius, fortius" (mais rápido, mais alto e mais forte) proposto por Pierre de Coubertin.
Fico a pensar se estes são os grandes motivos da minha emoção, ou lembrar que em 2016, as Olimpíadas programadas para a cidade do Rio de Janeiro podem até mesmo não ocorrer, por nossa reconhecida incapacidade de cumprir metas estabelecidas e pela corrupção que permeia nossas entidades desportivas, quiçá toda a sociedade brasileira.
Me emociono também ao constatar que ainda existem pessoas, como os professores Fernando de Oliveira e Ricardo Pacheco que acreditam no poder do esporte em transformar as pessoas e melhorar os relacionamentos neste mundo conturbado.
E não há como deixar de matutar que apesar das estatísticas que me são favoráveis, as Olimpíadas de Londres 2012, evento que ocorrerá até 12 de agosto, podem ser o último da minha existência.
Afinal de contas, até mesmo um grande atleta, como era o Admilson Chitarra, não recebeu a benevolência dos deuses e nos deixou prematuramente. Ele que resolveu, não sei por que, treinar uma equipe de basquetebol da qual faziam parte amigos que já se foram, como Januário, Nanato e eu, entre outros. Dias alegres!  E acreditem, naquela equipe eu jogava muito bem e era craque.
Enquanto isso, vitimado pela falta de condicionamento físico e por um nervo ciático que dói como o Cão, passo após anos de ostracismo, a frequentar uma academia, preocupado com meu conforto no dia a dia.
Que os deuses que controlam músculos, tendões e ossos tenham dó deste pobre mortal, é o que desejo.
Que saibam que não tenho a mínima intenção de me igualar a eles e sim de poder carregar esta carcaça velha com um mínimo de decência.

Ideal Olímpico



As Olimpíadas da Antiguidade eram um festival religioso e atlético restrito ao mundo helênico, cuja cultura, a exemplo de suas contemporâneas, louvava deuses e fazia do esporte uma celebração dos mortais.
Sua realização implicava suspensão de conflitos, para garantir a participação segura de atletas e torcedores de outras regiões.

Os vencedores eram celebrados, em prosa e verso, como heróis de suas cidades.
Era uma celebração, sim, mas também uma forma demonstração de poder, tanto que era vedada a participação de escravos e mulheres. Curiosamente, isso não impedia os gregos de cultuarem deusas, inclusive Atena, considerada deusa da sabedoria.

Esses jogos pagãos foram suspensos com o advento do cristianismo, embora vários sincretismos tenham sido bem aceitos, em nome da expansão religiosa. No entanto, na Idade Média era comum a ocorrência de torneios em que campeões dos reis definiam disputas territoriais e de honra numa "justa", sem derramar sangue de inocentes.

Quando Pierre de Coubertin propôs a reinstituição dos Jogos Olímpicos, de forma ampla e laica, visava à aproximação entre os povos. Ainda era uma competição física, de força e sentidos. Porém, abria espaço para a superação também das diferenças culturais, o que continua a não interessar a alguns, pois mentes abertas são mais difíceis de controlar. Prova disso é que, até recentemente, algumas religiões desprezavam competições esportivas, até perceberem que isso estava afastando seu rebanho mais jovem. Pois é, em nome da expansão, agora os esportistas são seus divulgadores...

Só que ainda há religiões que impedem a participação de mulheres em competições, ou criam tantas restrições, que limitam seu desempenho atlético e psicológico. Porém, nada têm contra lutas e tiro a qualquer coisa, fora do ambiente esportivo...

Apesar desses anacronismos e novos sincretismos, o ideal da competição leal e superação esteve presente até em Berlin, 1936, pena que restrito a atletas. Infelizmente, não repetimos a sapiência grega durante as Guerras Mundiais, quando as Olimpíadas foram suspensas. Ela também fez "forfait" na Guerra Fria, substituída pela de "dopings", atentados e boicotes.
Hoje, as Olimpíadas são o evento mais democrático do mundo, embora ainda "contaminada" com questões alheias ao esporte.

Seus vencedores legítimos, têm sua imagem e conquistas lucrativamente exploradas por patrocinadores, políticos e religiosos. Isso é contingência, pois hoje predomina o profissionalismo, ou seja a maioria absoluta do atletas se dedica exclusivamente ao esporte, mediante rígidos contratos.

O valor de suas conquistas, independentemente das paixões envolvidas, é relativo:
Eles provam que o ser humano pode ultrapassar limites com treino, disciplina e motivação. Alguns passam por imensas privações e desafios para suplantarem obstáculos no esporte e na vida. Porém, não salvam vidas; não constroem pontes; não mudam a mente dos poderosos... Isso é raro!

Consciente disso, confesso que torço incondicionalmente para os atletas brasileiros, e que tenho especial carinho pelos antes desconhecidos que superam a arrogância de favoritos; pelos que choram ao vencer; pelos que sorriem, mesmo ao perder, certos de que deram o melhor de si.

Nós, simples mortais, incógnitos amadores do esporte e da vida, podemos aprender com eles, que disciplina, consciência, ética e respeito ao próximo não têm limites; que mente sã num corpo são é a síntese que nos torna competidores de elite na maratona do viver, no revezamento da humanidade, cujos louros da vitória estão no empenho em passar o bastão de um mundo melhor para as futuras gerações!

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